9 de junho de 2015

Linguagem e Tradição - Coluna Insolência Quinzenal



Nosso mundo contemporâneo de transformações está repleto. Sem dúvida, comparado com os antigos mundos que lhe são ancestrais, as coisas da permanência são menos enquanto que da mudança são mais. Talvez industrialização. Ou filosofia moderna. Rede mundial de computadores. Talvez ainda nossas ideias politicamente revolucionárias desconhecidas de quem antes de nós viveu (Bem... Ainda vive: contudo mal). Melhor: as quatro juntas e misturadas em orgia das autênticas... Que tal?

Porém hei de discutir sobre linguagem. Arvorar em compreender todo processo de modernidade nas plagas ocidentais, principiado com as grandes navegações portuguesas, é talvez fugir do tema.

Será?

Decidi: não.

Toda linguagem deve se referir a realidade. Digo cadeira quando se tem uma pelo menos imaginariamente. Também digo justiça social quando se tem uma pelo menos. Hoje nós temos ambas as coisas só que nas imaginações, não comuns mas loucas, tão-só. Derrida com a primeira. Qualquer universidade com a segunda.

Quão sério vem a ser nosso problema! Sem escrever e ler não é problema sozinho. Gente despreparada para ler o mundo no qual vive vem a ser maioria: desde pessoas com analfabetismo funcional até gente que defende justiça social por meio dos quais esta nunca virá. Cada qual com imaginário particular: as primeiras imaginam que leem mais a segunda que também imagina só que defender indivíduos socialmente desfavorecidos.

Um exemplo: comunismo. Quantas mortes!... Até fome. Mas ainda nas cabeças de quem deseja findar com fomes e mortes.

Se nesta balbúrdia nos encontramos como podemos nomear bem as coisas? Imaginações, as tacanhas e malucas inclusive, são tão subjetivas que só convivendo com cada para compreender todas. E tem ainda que comparar umas com as outras para ver se dizem ou não a mesma coisa. Sofre nossa língua materna, por exemplo, com tal bagunça no momento que deixa de se referir as coisas para se referir as loucuras individuais. E sem contar o desleixo das loucuras no seu mal uso da língua por inúmeros motivos. Dentre tantos está Sr. Derrida mais escol de sua raça de compreender nenhuma leitura.

Lembremo-nos de Camões. Que fez a nossa língua nobre para dizer desde simples sentenças enamoradas às nossas paixões até conceitos filosóficos de grande monta. Só ler a do perdigão e depois "Babel e Sião". Conhecer a transformação ocorrida na nossa língua para melhor é ler Sá de Miranda na sua tentativa frustrada de bem expressar conceitos difíceis por serem sublimes: tanto na sua simplicidade quanto na sua complexidade.

Mas a transformação camoniana não foi revolucionária pois bebe da boa tradição tanto greco-latina quanto judaico-cristã. Só ler "Os Lusíadas".

E presenciar Virgílio ser superado menos por força: mais por graça.

Quem conseguirá ler tanto? Qualquer tradição das boas abandonamos em prol da revolução doentia de toda coisa... Que nada diz sobre nós a não ser sobre nossa doença. Qual desfecho terá tal ópera-bufa senão ficarmos imbecis? Esquecemos obviedades que nem a que toda cultura só se faz com os bons ensinamentos das gerações pretéritas passados às gerações seguintes. E mais: acumulados depois de várias gerações.

Eis a tradição!

Camões convive conosco. Também Eça. Pessoa. Juntamente com Machado. Mas o quarteto conosco vive mal por não ser bem lido. Pior: compreendido! Neste pé nós internalizaremos um dia tudo que Descartes realmente pensou sobre seres humanos: autômatos desalmados meras peças na maquinaria da natureza.

Que dor imensa na nossa glândula pineal!

No mais é frisar que Vênus mostra para Vasco da Gama também uma máquina do mundo mas quando lhe contemplamos os Céus...


"... Onde logrando
Puras almas estão daquele Bem
Tamanho, que ele só se entende e alcança,
De quem não há no mundo semelhança".




e-mail: sergio@leialiteratura.com

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