1 de outubro de 2014

A Cor do Dinheiro (1986) - Papel e Película (Coluna)


Três gerações do cinema se encontram neste filme sobre juventude, velhice e superação. Paul Newman, representante da velha guarda de Hollywood, aos 61 anos se torna mentor de Tom Cruise, o novato carismático, e ambos são dirigidos por Martin Scorsese, diretor consolidado da geração mais contestatória que já ficou atrás das câmeras.

“Fast Eddie” Felson (Paul Newman) pode ter abandonado os torneios de sinuca, mas a paixão pelo jogo nunca o abandonou. Ele redescobre esta paixão bem viva ao se tornar mentor de um jovem talentoso, Vincent (Tom Cruise). O conflito surge quando ele passa a ver no garoto o Eddie do passado, ao mesmo tempo imensamente habilidoso e arrogante.

Martin Scorsese já havia se estabelecido como um dos grandes diretores da “Nova Hollywood” a partir de meados dos anos 70, e sua grande consagração veio com “Touro Indomável”, que garantiu o Oscar de Melhor Ator a Robert De Niro. Aqui novamente Scorsese dirige um grande intérprete para ganhar o Oscar. Paul Newman já havia sido indicado ao prêmio sete vezes sem sucesso. Ele também já havia recebido uma indicação ao Oscar de Melhor Diretor em 1968.

Newman havia interpretado Eddie Felson 25 anos antes, em “Desafio à Corrupção” (1961), e estava bastante interessado em reviver o personagem. No primeiro filme, Eddie chega ao topo do mundo da sinuca ao derrotar o melhor jogador do país, Minnesota Fats (Jackie Gleason), mas ao mesmo tempo tem problemas com apostadores e com a bela e atormentada Sarah (Piper Laurie). Está aí a semente da saída de Eddie das mesas de sinuca, com um retorno humano e inspirador 25 anos depois.

Walter Tevis escreveu seu primeiro livro, “The Hustler”, em 1959 e criado uma continuação, “The Color of Money”, em 1984, pouco antes de morrer. Ele já não estava mais aqui para ver Scorsese descartar seu livro e trabalhar em um roteiro original sob o mesmo título. O roteirista Richard Price apenas usou os mesmos personagens, mas construiu situações e diálogos novos, e por isso foi indicado ao Oscar (mas de Roteiro Adaptado!).

Scorsese começa o filme com a própria voz, narrando um pensamento profundo sobre a bola 9 de sinuca e o significado de sorte. Mas, para o diretor, aquele filme não era uma questão de sorte, sequer de paixão ou respeito pelo material original: Scorsese queria ter lucros suficientes para financiar um projeto ambicioso: o filme “A última tentação de Cristo”, o que de fato conseguiu. Provavelmente foi uma conquista para Martin, fã confesso do bom e velho cinema clássico, dirigir Paul Newman. Embora esteja sólido e simpático, Newman não está aqui em seu melhor personagem, e o Oscar soa mais como um pedido de desculpas por não ter sido concedido antes.

E eis que surgem os jovens: Mary Elizabeth Mastrantonio, interpretando a namorada de Vincent, conseguiu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante e fez duas grandes cenas com Paul Newman. Tom Cruise conseguiu muitos elogios, e trabalhou duramente para isso: aprendeu a jogar sinuca e dispensou um dublê em 99% das cenas (quase todas as tacadas são mesmo feitas por Cruise). E outro jovem se destacou com o filme: Ben Stiller, então estudante universitário, criou uma paródia da película que foi apresentada no programa Saturday Night Live.

Assim como aconteceu com “Desafio à Corrupção”, a estreia de “A cor do dinheiro” gerou um grande aumento na venda de mesas de sinuca. Mas não é preciso ser aficionado pelo jogo para apreciar o filme: seus temas são tão intrínsecos à condição humana que é impossível passar os 119 minutos sem se identificar com Fast Eddie Felson & Cia.

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