5 de agosto de 2014

O Menino do Pijama Listrado (2008) - Papel e Película (Coluna)



A quantidade de obras relacionadas com o Holocausto é impressionante, e não para de crescer. Quando essas obras envolvem crianças, esteja preparado, com lenços de papel na mão: rios de lágrimas vão rolar. Imagine o impacto causado quando O Diário de Anne Frank foi publicado pela primeira vez: se tratava de uma história real de uma vítima da tragédia, olhando a perseguição de dentro para fora. Nas obras de ficção, a emoção pode, em tese, ser menos forte, mas não há jeito: sempre vamos nos emocionar com as histórias inventadas.

O menino Bruno (Asa Butterfield) tem oito anos e faz uma descoberta ao voltar da escola em um dia comum: seu pai (David Thewlis) foi promovido e a família terá de se mudar. Como qualquer criança, ele não gosta nada da ideia de ir morar em um local diferente e perder seus amigos da escola, mas não pode fazer nada a não ser aceitar. Quem também deve aceitar a mudança é a mãe de Bruno, Elsa (Vera Farmiga), sempre conformada com as decisões do marido soldado. Gretel (Amber Beattie), a irmã mais velha de Bruno, parece não se importar muito com o fato de ir para uma casa nova, porque o sacrifício é necessário (estaria ela seguindo os passos do conformismo da mãe?).

A nova casa é o local sinistro ideal para uma tragédia acontecer. E ela está acontecendo de fato: o pai de Bruno, na verdade, trabalha em Auschwitz. Por isso os arredores da casa são proibidos para as crianças, mas Bruno, entediado e dotado de espírito aventureiro, desobedece às regras e sai para explorar o quintal... e além! Qual não é sua surpresa quando ele encontra um menino de sua idade do outro lado da cerca do campo. Shmuel (Jack Scanlon) é um garotinho judeu que não compartilha a ingenuidade de Bruno, pois teve de amadurecer na marra. Mas isso não impede que uma amizade se desenvolva entre eles.

O livro foi escrito pelo irlandês John Boyne, que revelou ter criado toda a história em dois dias e meio, para depois desenvolvê-la. Seu livro virou sucesso de vendas em 2006. Embora a trama seja fielmente adaptada para as telas, alguns “pequenos” detalhes são deixados de fora, como a visita do Führer à nova casa de Bruno (no filme aparece apenas um homem baixinho descendo do carro, e ele não necessariamente chega para jantar). No livro também é citado que eles estão em Auschwitz (na tradução brasileira, as crianças pronunciam o nome do campo como “Haja-Vista”. Na versão em inglês, como “Out-With”). Bruno também chama o Führer de “Fúria” no livro.

Obviamente, o destaque fica para os dois atores mirins. Asa Butterfield é mais conhecido por ter protagonizado “A aventura de Hugo Cabret” em 2011, mas já mostra a que veio neste filme. Com seus cabelos pretos, pele muito clara e grandes olhos azuis, ele personifica o ideal da criança alemã perfeita, e seu destino é de fato um soco na boca do estômago da teoria da raça pura. Jack Scanlon, com dez anos quando o filme foi feito, está ótimo, tristonho, faminto e careca como o menino judeu.

Outro bom desempenho vem de Vera Farmiga. Repare em como ela deixa de arrumar os cabelos e vestir roupas bonitas conforme vai descobrindo a realidade sobre o trabalho do marido. Já disse que ela faz o papel da mulher submissa, e infelizmente esse era o papel acessível à maioria das mulheres durante as décadas de 1930 e 1940, ainda mais em uma sociedade como a da Alemanha nazista. No final das contas, ver “O menino do pijama listrado” por um viés feminista não deixa de ser uma ideia interessante.

Como todo grande sucesso, esta obra também gerou várias críticas. Muitos foram os que se sentiram incomodados com a ingenuidade de Bruno, e os mais acalorados debates chegaram a condenar o tom fantasioso do livro, que faz com que os personagens estejam no lugar certo, na hora certa. Anunciado como um livro infantil, “O menino do pijama listrado” deu origem a um filme que talvez não atraia as crianças, por seus tons cinzentos e a seriedade do assunto. Mas este assunto é tão sério quanto importante, e levanta outro debate: são mais culpados os envolvidos diretamente, como o pai de Bruno, ou os outros adultos, que veem o mal e deixam-no acontecer?





Letícia

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