1 de julho de 2014

Ernest & Célestine (2012) - Papel e Película (Coluna)


Longe do universo de princesas, do bem contra o mal e dos super-heróis, o mercado de animação da Europa vem trazendo filmes muito criativos e sempre surpreendentes. Não são necessários clichês, e as enredos incrivelmente descomplicados agradam a públicos de todas as idades. Ernest & Célestine é assim.

Ernest é um urso pardo que não consegue se sustentar apenas com a música. Le bem que tenta ganhar uns trocados tocando na praça, mas é ameaçado de ser preso por vadiagem. Célestine também não se dá bem em sua profissão. A ratinha é treinada para ser dentista, e para isso precisa buscar os dentes de leite dos ursos na superfície para que sejam usados para obturações nos ratos do esgoto. Célestine prefere desenhar. E, quando encontra Ernest, lhe propõe um acordo: se ele abrir a porta de um consultório de dentista para ela pegar dezenas de dentes de urso ela o ajudará a invadir a despensa de uma loja de doces. Esse é o começo de uma bela amizade.

Ambos, Ernest e Célestine, são párias em seus mundos por viverem sem seguir as regras. Logo, as confusões de ambos são tratadas como crimes e a dupla passa a ser perseguida por policiais. O problema é que ratos e ursos não convivem de jeito nenhum, o que dificulta a prisão dos meliantes. Ernest e Célestine passam a morar juntos, longe do mundo, onde podem ser quem eles verdadeiramente são. Quem quiser interpretar essa história como uma afirmação da liberdade sexual pode fazê-lo, mas não se esqueça de que tudo começou com um livro infantil.

A ilustradora belga Gabrielle Vincent (1928-2000) criou nos anos 80 os dois protagonistas dessa amizade improvável. De 1981 a 2000, foram 20 histórias ilustradas, e outras duas foram publicadas postumamente. Gabrielle também fez livros ilustrados para adultos, cujas imagens parecem desenhadas a carvão. O roteiro do filme, totalmente alheio às histórias originais, ficou por conta do escritor Daniel Pennac, que nunca havia trabalhado com cinema. Durante vários anos Daniel trocou cartas com Gabrielle Vincent, mas isso só foi descoberto pela equipe do filme depois de sua contratação.

O filme é dominado pelos tons pastel e isso lhe confere uma atmosfera toda única: se não exatamente retrô, pelo menos de fábula. Afinal, para ser fiel à técnica de Gabrielle, era necessário usar aquarela ao invés de se render à animação computadorizada. E aí vem uma surpresa: a dupla de designers que criou os cenários para o filme é a mesma que trabalhou em “Persépolis”, a animação em preto e branco de 2007 sobre a vida de uma adolescente durante a Revolução Iraniana.

A película foi uma co-produção França / Bélgica / Luxemburgo e foi um dos indicados na categoria Melhor Filme de Animação no Oscar de 2014, perdendo para “Frozen”. Foram cinco anos de trabalho árduo até que o filme estreasse em Cannes, recolhendo muitos elogios. E esse foi seu destino: conquistar elogios por onde quer que passe. Afinal, a história que parece ter saído de uma fábula de Esopo nem precisa de moral para aquecer o coração de quem a vê.




Letícia

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