2 de junho de 2014

Macunaíma (1969) - Papel e Película (Coluna)


No fundo do mato virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Isso na visão do escritor Mário de Andrade. Na visão do cineasta Joaquim Pedro de Andrade (nenhum parentesco), uma figura horrenda dá um grito agudo para parir Macunaíma (Grande Otelo), o maior e mais preguiçoso bebê que o cinema já viu. Esta é a cena mais famosa, e talvez a mais importante, da pérola nonsense que é Macunaíma.

As primeiras palavras do pequeno grande menino são justamente “ai, que preguiça!”. De camisola amarela e cabelos eriçados, ele é abandonado pela família depois de um episódio catastrófico em que se transforma em um príncipe loiro. Adotado por uma nova família, vai com seus irmãos postiços para a cidade grande. No caminho, encontra uma fonte miraculosa e, banhando-se nela, torna-se branco, e passa a ser interpretado pelo grande Paulo José.

Chegando à cidade grande, Macunaíma tem um momento profundo e profético quando se impressiona com as máquinas e diz: “Os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram os homens da cidae”. Ele também se mete em uma perseguição envolvendo (ou melhor, é perseguido por) uma bela ativista com ares de guerrilheira, Ci (Dina Sfat, esposa de Paulo José). Depois de uma fatalidade, Macunaíma passa a perseguir um sonho: o de roubar a pedra mágica muiraquitã do gigante Venceslau Pietro Pietra (Jardel Filho).

O livro de Mário de Andrade foi publicado em 1928, depois de uma extensa pesquisa antropológica empreendida pelo autor. Ele colheu vários mitos e expressões do folclore brasileiro e, ainda no espírito contestador Modernista, escreveu Macunaíma juntando tudo que aprendeu em um caldeirão tão diverso quanto o Brasil. Seu protagonista, o herói sem nenhum caráter (ou talvez o herói sem nem um caráter, mas sim um caráter múltiplo), é a personificação do brasileiro preguiçoso que quer tirar vantagem de tudo. O “jeitinho brasileiro” já foi explorado em outras obras, como “Memórias de um sargento de milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, e hoje esse tema está em desuso até porque a visão que o mundo e nós mesmos temos do povo brasileiro mudou um bocado (mas ainda o povo continua exaltando quem não presta).

O cineasta Joaquim Pedro de Andrade era filho do fundador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e formado em Física. Joaquim escreveu sobre cinema na faculdade e teve pequenas experiências na área, até que em 1957 trabalhou como assistente de direção no excelente “Rebelião em Vila Rica”, e assim entrou de cabeça no mundo cinematográfico. Ele começou a trabalhar no roteiro e na direção de Macunaíma poucos dias depois de ser liberado do DOPS, por isso o caráter mais político que mitológico do filme, afinal, muitas mudanças foram feitas para que a história de Macunaíma refletisse o período da ditadura. 

Algo muito curioso a se observar, ou melhor, a se escutar, é a trilha sonora, ela própria uma colcha de retalhos da música brasileira. De Luiz Gonzaga à Jovem Guarda, tem de tudo no filme, com cada música casando perfeitamente com o momento em que é tocada. Pura antropofagia musical!

Apesar de todos os prêmios ganhos na época do lançamento e o reconhecimento mundial posterior, Macunaíma não é para todos os públicos. Quem conhece o livro acaba encontrando uma obra demasiado politizada. Quem aterrissa sem saber de nada encontra um filme muito, muito louco. Mas quem sabe ver mais além e não se importa com um pouco de realismo fantástico (ou seria puro e simples surrealismo?) com certeza saberá apreciar Macunaíma.

5 comentários:

Comente e Dê sua Opinião Sobre O Tema.

Lembrando que qualquer opinião com boa educação é muito bem-vinda, mas ofensas são excluídas.

(obrigado pela visita, volte quando puder)