5 de maio de 2014

Agonia e Êxtase (1965) - Papel e Película (Coluna)



Sem dúvida, o teto da Capela Sistina no Vaticano é uma das obras mais belas já produzidas pela mão humana. Embora a pintura já tenha passado por algumas restaurações, ainda se deve dar o crédito da obra-prima ao pintor Michelangelo. Imprimir toda a criação usando tintas no teto de uma igreja no século XVI com certeza foi uma tarefa dificílima, sobre a qual podemos apenas especular hoje. E fazer isso com o Papa sempre pegando no seu pé para terminar a obra, já imaginou? Bem, foi isso que a imaginação criou em “Agonia e Êxtase”.
 
Michelangelo (Charlton Heston, protagonista dos clássicos “Os Dez Mandamentos” e “Ben-Hur”) é um artista excepcional, mas um pouco boêmio e temperamental. Ele tem amigos influentes na nobreza e gosta de criar suas obras seguindo um ritmo próprio.  Ele também não aceita a ideia original do Papa Júlio II (Rex Harrison, de “My Fair Lady”), que queria os doze apóstolos no teto.
 
O real Papa Júlio II (1443-1513) era um “Papa guerreiro” que queria unir a Itália sob o seio da Igreja e, para isso, apostou no poder de grandes símbolos, entre eles a Basílica de São Pedro. Em 1506, ele decidiu que o teto da Capela Sistina, construída em 1480, deveria ser decorado com cenas religiosas. Achar um artista não era problema: em pleno Renascimento, alguns dos maiores gênios que andaram neste planeta estavam disponíveis no território italiano, prontos para fazer sua arte. Mas o escolhido, Michelangelo Buonarrotti (1475-1564), não ficou feliz com a tarefa: considerando-se primeiramente um escultor, ele não queria aceitar o trabalho, afinal, já estava trabalhando nas esculturas do túmulo do Papa. Graças a Deus ele mudou de ideia!   
 
O autor Irving Stone fez uma pesquisa intensa para escrever o livro de mesmo nome do filme, o que incluiu aprender a esculpir e a retirar o mármore da região de Carrara.Ele inclusive teve acesso à correspondência de Michelangelo! Stone escreveu muitos livros sobre personalidades históricas, e este lhe rendeu muitas homenagens do governo italiano pela maneira como ele retratou a história do país. A explicação para este retrato fidedigno é óbvio: o livro encerra um período de tempo maior que o que é mostrado no filme.
 
Algo muito interessante neste filme é que ele mostra algo que ainda observamos: o sofrimento dos artistas. Se não é fácil viver de arte hoje, também não o era há 500 anos. Michelangelo precisa brigar muitas vezes para receber o seu pagamento e ele inclusive chega a ir ao campo de batalha atrás do Papa apenas para ser pago. Outra parte fascinante é aquela que nos dá a oportunidade de espiar o processo criativo de Michelangelo, ou melhor, o seu processo quando ele estava inspirado. Para marcar onde cada figura apareceria no teto, ele fazia um molde em gesso e furava os contornos, de modo que, quando passasse o pincel por esses contornos, os teria transferidos para a parede, mostrando perfeitamente as linhas onde cada um de seus ajudantes deveria pintar (ou você acha que Michelangelo fez tudo sozinho e ainda teve tempo de farrear?).

O filme foi gravado em estúdios italianos, embora o Vaticano tenha oferecido a própria Capela Sistina para servir como cenário (imagina se ela tivesse sido danificada nas gravações? Não quero nem pensar nisso). Charlton Heston, curiosamente, havia sido escolhido para interpretar Moisés em “Os Dez Mandamentos” nove anos antes por se parecer com a estátua de Moisés esculpida por Michelangelo. Para este filme, ele usou uma prótese para imitar o nariz quebrado do artista. Heston e seu colega Rex Harrison não se deram bem durante as filmagens, o que até ajudou a criar o clima de revolta entre os dois personagens. A superprodução, mesmo perdendo dinheiro na bilheteria, foi indicada a cinco Oscars e continua maravilhando todos que gostam de história e de arte.    

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