21 de abril de 2014

Chocolate (2000) - Papel e Película (Coluna)


Nada mais apropriado para a semana depois da Páscoa que chocolate, não é? Não importa se você já comeu seu ovo ou se o guardou para degustá-lo durante vários dias: este filme vai dar água na boca!

A culinarista Vianne Rocher (Binoche), especialista em chocolates, chega a uma nova cidade do interior da França com sua filha Anouk (Victoire Tivisol). O ano é 1959, e Vianne não é nada parecida com a maioria das mulheres da época: mãe solteira, independente, usa roupas mais curtas, muita maquiagem e abre seu próprio negócio, uma loja de chocolates. A época é a Quaresma, e o mal-humorado prefeito Reynaud (Alfred Molina) começa uma verdadeira cruzada contra Vianne, inclusive acusando-a de bruxaria (e talvez ela seja uma bruxa!).

Mas muita gente nem dá atenção às palavras do prefeito e deixa-se cair pelos encantos de Vianne e seus chocolates. Um momento degustando um bombom pode dar início a uma bela amizade ou a uma conversa franca sobre problemas cotidianos. Isto é o que ocorre com Armande (Judi Dench), que conta a Vianne como a filha a proibiu de ver o neto, e Josephine (Lena Olin), que confidencia que apanha do marido. Vianne, então, decide ajudar as duas senhoras.

Johnny Depp chega como o cigano Roux, vindo em um barco para passar uma noite às margens da cidadezinha. Durante uma grande festa, ele conhece Vianne e os dois se apaixonam. Depp canta duas músicas da trilha sonora. Bonito e talentoso: Vianne fez a coisa certa ao se apaixonar! A veterana Leslie Caron faz uma pequena participação.

O livro foi publicado um ano antes, em 1999, e a autora Joanne Harris usou boa parte de sua família como inspiração: enquanto a filha é a inspiração para a pequena e precoce Anouk, sua bisavó, uma excelente cozinheira, serviu como base para Vianne. A bisavó de Joanne foi muito criticada em sua época ao se recusar a matricular o filho em uma escola católica local, o que era costume, e ao invés mandá-lo para uma escola comum. A autora não estabeleceu nenhuma data em que a história se passa, apenas deixou claro que se tratava de um vilarejo fictício e muito conservador.

Joanne nos deu uma oportunidade única ao escrever sobre sua experiência para um artigo no Daily Telegraph. Quando ela começou a escrever o livro, era professora em uma pequena escola. Três anos depois, tinha sua obra nos cinemas. Em meio a isso, quando assinou o contrato, preferiu ser realista, pois poucas obras que têm os direitos adquiridos pelo cinema realmente viram filmes. De fato, no mundo cinematográfico, a quantidade de projetos abortados para cada filme que estreia é impressionante. E outro fato que Joanne nos conta é que ela sempre imaginou Juliette Binoche no papel principal, mas não podia influir na escolha dos atores. Até que a estrela francesa entrou em campo para lutar pelo papel, e se tornou amiga da autora, que graças a essa amizade teve um maior controle sobre a adaptação do livro. Seu único arrependimento, nos escreve Joanne, foi que o coelho imaginário da filha virou um canguru para o filme.

A grande diferença é que no livro o “inimigo” de Vianne, Reynaud, Ra um padre, e no filme ele é o prefeito. Isso nos leva a pensar em como a Igreja sempre apontou o prazer como um pecado, e é sabido que o chocolate é afrodisíaco, além de poder levar qualquer um a cometer o pecado da gula. Proibir o chocolate, para o padre Reynaud, era muito mais que um objetivo, era uma necessidade religiosa.

Vendo o filme, é quase possível sentir o cheiro do chocolate. Chega a doer a boca do estômago. Com boas atuações e um visual encantador, o filme foi indicado a cinco Oscars, mas não ganhou nenhum. Para a crítica, o filme não é nenhum chocolate belga, mas o público tem a certeza de que é uma deliciosa obra incapaz de se tornar enjoativa ou causar indigestão.


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