23 de março de 2014

O Lado Bom da Vida (2012) - Papel e Película (Coluna)


Segundo a mitologia grega, Midas era um rei que tinha o poder de tocar em uma coisa e transformá-la em ouro. Daí se originou a expressão “toque de Midas”. Alguns cineastas têm seu toque de Midas, transformando ideias e roteiros medianos em filmes maravilhosos. David O. Russell, responsável pelo roteiro e direção de “O lado bom da vida”, deve ter um toque de Midas ao contrário, pois tinha em suas mãos um excelente livro, ficou cinco anos re-escrevendo um roteiro 25 vezes e gerou um filme bem inferior ao seu original literário.

Pat (Bradley Cooper) é retirado de uma clínica psiquiátrica pela mãe (Jacki Weaver), embora não tenha recebido alta. Seu maior objetivo é reconquistar a esposa, Nikki. Para isso, ele malha muito e tenta ser uma pessoa melhor. Através de um amigo de infância, ele conhece Tiffany (Jennifer Lawrence), uma moça que ficou viúva há pouco tempo e também está sofrendo com problemas mentais. Tiffany promete ser o elo entre Pat e Nikki, se ele se comprometer a ser seu parceiro em uma apresentação de dança.

O livro parece previsível, mas consegue prender a atenção com a competição de dança, que traz um novo rumo para uma história de amor que parece ir andando como se espera. Também ficamos curiosos para saber por que Pat foi para a clínica e o que gerou a cicatriz em sua testa. O filme nos conta isso de cara, destruindo o mistério. O autor Matthew Quick descreveu a experiência de ver seu livro virar filme como “surreal” e foi só elogios, mas eu não ficaria nem um pouco satisfeita com as mudanças se fosse a autora!

As mudanças do livro para o filme são muitas, desnecessárias e inexplicáveis. O protagonista Pat Peoples, professor de educação física no livro, se torna Pat Solitano, professor substituto de história no filme. Pra quê isso? Só porque seu pai é interpretado pelo ator de raízes italianas Robert De Niro (de longe, a melhor coisa do filme) e também porque o diretor quis inserir uma explicaçãozinha sobre a origem da expressão OK?

O livro tem grandes ideias, e conforme eu lia, ficava curiosa para ver como elas seriam transmitidas para a tela. Mas elas simplesmente foram eliminadas. Os jogos de futebol americano, o grito de guerra do time dos Eagles, a coreografia incrível descrita em detalhes, o reencontro com Danny, a viagem à praia. Tudo destruído por um roteiro horrível.

As atuações não são ruins, mas não ajudam a melhorar o roteiro. Chris Tucker, no papel do amigo de Pat, Danny, exagera e torna um personagem que deveria estar se recuperando de um trauma em uma criatura muito caricata. Veronica (Julia Stiles), irmã de Tiffany, torna-se uma personagem altamente desprezível, nojenta mesmo. Jennifer Lawrence, na performance que lhe garantiu o Oscar, não está totalmente ruim, mas seria melhor se tivesse as nuances do livro, em especial em algumas cenas cruciais. Creio que a atriz escolhida inicialmente, Zooey Deschanel, seria melhor e um pouco mais adorável. Já Robert De Niro se destaca: seu personagem, um pai ausente e fechado no livro, se torna um homem carinhoso, mas obsessivo, no filme. De Niro intercalou cenas com mais ou menos dureza durante as filmagens, e mais tarde elas foram editadas de acordo com a sensação a ser passada em cada momento.

Mas vamos aos pontos positivos: a trilha sonora é bem bacana, com direito a Stevie Wonder, Dave Brubeck, Bob Dylan e Johnny Cash. Ah, tem até música brasileira! Na dança final, há um bom mash-up (mistura de músicas) que com certeza já foi copiado em competições de dança com fãs do filme. E o ponto alto, pelo menos para mim, foi quando uma cena de “Cantando na Chuva” apareceu no iPod durante os ensaios.

Em uma trama de doenças mentais e problemas familiares, é difícil encontrar amor e humor. O filme consegue isso, mas não da maneira correta. Quem o vê sem ter lido o livro pode até considerá-lo bonitinho, mas não se enganem. Falarei algo pela primeira vez em quase três anos escrevendo esta coluna: se puder, fuja do filme e fique com o LIVRO!


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente e Dê sua Opinião Sobre O Tema.

Lembrando que qualquer opinião com boa educação é muito bem-vinda, mas ofensas são excluídas.

(obrigado pela visita, volte quando puder)