9 de março de 2014

A Cor Púrpura (1985) - Papel e Película (Coluna)


No Oscar de 2014, vimos um campeão de indicações, “Trapaça / American Hustle”, sair de mãos vazias da noite mais importante de Hollywood. Dez indicações frustradas não é para qualquer um, mas nem este recorde o filme conseguiu: “A cor púrpura” teve onze indicações ao Oscar em 1986, mas não levou nenhum prêmio. E, mesmo assim, é considerado um dos filmes mais tocantes da carreira de Steven Spielberg.

“A cor púrpura” conta a história das irmãs Nettie e Celie, vivendo no sul dos Estados Unidos, machista e preconceituoso, no início do século XX. Elas são constantemente abusadas pelo pai e, para piorar, são órfãs de mãe. Celie, considerada feiosa por todos, engravidou duas vezes depois de ser estuprada pelo pai, e em ambas as vezes seus filhos foram separados dela logo após o nascimento. Mas a desgraça não acaba: ela é obrigada pelo pai a se casar com um homem que, a princípio queria se casar com Nettie, mas o pai não deixou que a filha mais nova e mais bonita fosse embora de casa. Assim, Celie continua com uma vida de abusos.

Celie chama o marido de “senhor” (mais tarde descobrimos que o nome dele é Albert), e precisa lidar com os filhos indisciplinados dele. O único conforto de Celie são as cartas trocadas com a irmã, mas com o tempo elas param de chegar, mesmo ela ficando de olho na caixa de correio.

Este foi o filme de estreia tanto de Whoopi Goldberg, vinda da comédia stand-up, e de Oprah Winfrey. Ambas foram indicadas ao Oscar. Whoopi ficou com o papel da protagonista, o que foi um espanto para ela mesma, enquanto Oprah interpreta Sofia, a nora de Albert e Celie, casada com Harpo, e que não leva desaforo para casa. Sua insubordinação choca a sociedade, que na década de 30 ainda considerava os negros muito inferiores aos brancos. Albert é interpretado por Danny Glover e Willard Pugh interpreta Harpo.

O livro de Alice Walker venceu o prêmio Pulitzer em 1983 e foi logo comprado para ser adaptado para o cinema. Spielberg considera este seu primeiro filme “sério”. Muitos acreditam que o fato de Spielberg ter vindo de grandes sucessos de bilheteria cuja maior pretensão era divertir (“Tubarão”, “Contatos imediatos de terceiro grau”, “ET”) foi o que prejudicou o desempenho do filme no Oscar.

Alguns trechos mais arriscados foram deixados de fora do filme, como o ritual de circuncisão e mutilação sofrido por uma mulher na África no momento de seu casamento. Embora essa seja ainda hoje uma triste realidade, no livro há algo louvável: o marido insiste em também passar pelo ritual. A relação íntima que se desenvolve entre Celie e Shug Avery (Margaret Avery), amante de Albert, também é pouco explorada, embora seja o encontro com Shug que mude o destino de Celie. 

Algo surpreendente em ambas as obras é o fato de não haver menção nenhuma aos acontecimentos históricos do período, algo que era de se esperar para uma trama que se passa no turbulento início do século XX. Parece que o sul rural dos Estados Unidos, mais especificamente o estado da Geórgia, não era afetado pelas guerras, depressões econômicas e afins. Ou talvez os personagens já tivessem problemas demais para se preocuparem com as questões do mundo lá fora. 

O livro também foi adaptado para a Broadway em 2005, com Oprah como uma das produtoras. Com quase mil performances e um tour subsequente, o espetáculo foi indicado também a 11 prêmios Tony, ganhando apenas Melhor Atriz. Seria maldição? Não: embora o Oscar de Melhor Filme em 1985 tenha ido para “Entre dois amores”, “A cor púrpura” permaneceu como uma das melhores produções não apenas do ano, mas da década. Está esperando o quê para ver?


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente e Dê sua Opinião Sobre O Tema.

Lembrando que qualquer opinião com boa educação é muito bem-vinda, mas ofensas são excluídas.

(obrigado pela visita, volte quando puder)