11 de fevereiro de 2014

Ensaio sobre a Cegueira (2008) - Papel e Película (Coluna)



Todos os nossos cinco sentidos (olfato, tato, audição, visão e paladar) são importantes, mas aquele que todos teriam mais medo de perder é a visão. Essencial para locomoção e proteção, este sentido é aquele em que confiamos mais. Por isso, não há dúvidas de que um cataclisma ocorreria se todos ficassem cegos de um dia para outro. E foi preciso que um autor português nos mostrasse qual seria este estrago.

De uma hora para outra, um homem perde a visão no meio do trânsito. Os presentes desconfiam que o motorista sofreu um “blackout” psicológico momentâneo, e um homem muito sacana se oferece para levá-lo para casa, roubando o carro do pobre cego em seguida. Outras pessoas começam a cegar: a mulher deste primeiro cego, o ladrão do carro, as pessoas que estavam no consultório do oftalmologista que a primeira vítima consultou. Não é uma cegueira qualquer: ao invés de ser uma ausência de luz, o mal é o excesso dela, pois todos concordam se tratar de uma “cegueira branca”.

Em toda aquela região (seria um evento local? Nacional? Mundial? Saramago não nos diz), apenas uma pessoa não cega: a esposa de um oftalmologista. Mesmo assim, ela mente que está cega para poder acompanhar seu marido na quarentena. Sábia decisão, pois ela se torna uma espécie de líder isolada para os primeiros sete cegos que chegam ao isolamento. Quando o local, um hospício desocupado, fica lotado, ela perde a autoridade e todos se veem nas mãos de um cego ganancioso, interpretado por Gael García Bernal. 

Os cenários são extremamente cinzentos. Obviamente, o hospício que serve para a quarentena é o mais sombrio deles, e vai ficando cada vez mais coberto de lixo. A aparência dos personagens vai se deteriorando com o tempo, em especial da mulher do médico, interpretada por Julianne Moore. As filmagens foram feitas em São Paulo, Ontário e Montevidéu, mas, como combinado com Saramago, não há nenhuma pista eu indique a cidade em que se passa a ação. Seguindo a mesma ideia de “terror universal”, o diretor Fernando Meirelles escalou atores de diferentes nacionalidades.

A ideia de uma epidemia de cegueira mundial não é nova, mas degringolou nas mãos do escritor John Wyndham. Em seu livro de 1951, “The Day of the Triffids”, a humanidade fica cega e plantas extraterrestres tomam conta. A história serviu de base para o filme “O terror que veio do espaço”, de 1962.

Algumas mudanças básicas foram feitas para diminuir o tempo de projeção: o destaque fica para as cenas dentro da quarentena, e as jornadas dos personagens, já livres, mas cegos, em busca de suas casas, é deixada de lado. Um detalhe salta aos olhos: o suposto “rapazinho estrábico” não é nem um pouco estrábico. Afinal, que criança vesga seria estrela de cinema?
Apesar de ter sido o filme de abertura do Festival de Cannes de 2008, a produção recebeu críticas duríssimas, parte delas por ser muito diferente do que os americanos estão acostumados a ver no cinema, embora seja muito fiel ao livro. Depois de vê-lo, em uma sessão privada, Saramago ficou muito emocionado e agradeceu ao diretor por ter feito uma adaptação tão boa.

Tanto o filme quanto o livro foram condenados por associações de cegos americanos. A justificativa era de que ambas as obras ficcionais culpavam a cegueira por trazer à tona o pior do ser humano. De fato, uma pessoa cega não será automaticamente má, mas o mundo inteiro cego, este mundo tão dependente de estímulos visuais, pode, sim, tornar-se caótico com uma cegueira generalizada. Saramago respondeu a esses críticos: “A estupidez não escolhe entre cegos e não-cegos”.

Não deixe as críticas te levarem para longe de “Ensaio sobre a Cegueira”. Quem é mais impressionável talvez prefira o filme e feche os olhos nas cenas mais fortes. Quem gosta de riqueza de detalhes e uma boa reflexão ficará contente com o livro. Juntos, livro e filme mostram que muita coisa boa vem de países que falam português.



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