27 de janeiro de 2014

Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011) - Papel e Película (Coluna)


Ultimamente, os Estados Unidos não passam uma semana sem que haja algum crime, de menores ou maiores consequências, dentro de escolas. E é um acontecimento desses que norteia “Precisamos falar sobre o Kevin”, embora o ocorrido só seja revelado ao final. Sem ter a ver com bullying, a principal causa desses episódios, a história abre margem a uma gama totalmente diferente e inesperada de reflexões. 

O filme acompanha Eva (Tilda Swinton) em sua tentativa de tocar a vida. Ao mesmo tempo, em flashback, como que acompanhando as lembranças de Eva, conhecemos a família dela: o marido Franklin (John McReilly) e os filhos Kevin e Celia. Toda a vida de Kevin é contada. Ele é um garoto à primeira vista teimoso, mas com o tempo percebemos que é também dissimulado. Ao mesmo tempo em que desafia a mãe, que fica em casa cuidando dele o dia todo, é um doce com o pai quando este chega do trabalho. Franklin não dá ouvidos quando Eva reclama do comportamento subversivo de Kevin, dizendo que “ele é um garotinho bonzinho”.

Mas por que Eva precisa recomeçar? Não é spoiler, já que quase todos conhecem a sinopse antes de ver o filme: Kevin foi o responsável por um massacre na escola e está preso. Nada nem ninguém resta para apoiar Eva. Ela vive em uma casa suburbana vandalizada, coberta de tinta vermelha para simbolizar o sangue derramado por Kevin. Aliás, o vermelho é uma cor constante no filme, desde o início com o sonho perturbador de Eva, passando por bolas vermelhas e muita geleia de morango.

A casa de Eva foi vandalizada porque muitos concordaram que ela foi responsável pela criação errada de Kevin, o que o levou a um ato desumano. Alguns espectadores podem concordar com isso. Mas eu discordo. Acredito que há, sim, um mal inerente em Kevin, que não dependeu da criação para ser despertado. Afinal, não faltam exemplos de pessoas que saíram completamente diferentes da família, para o bem ou para o mal, apesar de terem a mesma criação que os irmãos, por exemplo.

Sim, Eva se descontrolou algumas vezes enquanto cuidava do pequeno Kevin. Bateu nele, gritou com ele, disse coisas das quais se arrependeu depois. Mas que pai ou mãe nunca fez isso? Quem, por melhor que tenha criado os filhos, não pensou que poderia ter feito uma ou outra coisa diferente? 

À primeira vista, o livro de Lionel Shriver parece impossível de ser adaptado para o cinema. Ele é formado por cartas escritas por Eva para o marido, e assim ele relembra fatos da criação de Kevin. O filme conserva a narrativa em flashback, mas retira alguns traços de caráter (ou falta dele) de Kevin. Quem leu o livro fala que teve certeza de que Kevin ama a mãe, mesmo de um jeito torto. Também fica claro que ele tem algum distúrbio.

Os direitos de adaptação do livro, que foi o sétimo da autora, foram adquiridos em 2005, dois anos após a publicação, mas a história passou por um caminho pouco comum atualmente: antes de virar livro, tornou-se série de rádio. E, se você também ficou surpreso por Lionel Shriver ser uma mulher (o nome verdadeiro dela é Margart Ann Shriver), veja que o filme é uma produção totalmente feminina: dirigido por Lynne Ramsay, a força-motriz é a andrógina Tilda Swinton, que se retorce em emoções no papel de Eva. Já Ezra Miller, como o Kevin adolescente, faz um bom trabalho, mas o destaque vai mesmo para Jasper Newell, que interpreta Kevin aos 8 anos e tem mais tempo em cena.

No livro, a cena do massacre é muito mais detalhada, assim como a maneira como Kevin escolheu suas vítimas. O garoto mandou bilhetes a alguns estudantes que eram notavelmente interessados por alguma atividade (esportes, dança...), para uma garota de quem Kevin gostava e também para um professor que o elogiara. Vale lembrar que, tanto no livro quanto no filme, Eva diz que Kevin não tinha um interesse especial por nada (quer dizer, só por arco e flecha). No filme não sabemos quantas foram as vítimas. No livro, é dito que Kevin atraiu 11 pessoas, mas duas sobreviveram: o esportista e o cinéfilo (vê como gostar de filmes tem suas vantagens?).

Enigmático, perturbador e surpreendente, “Precisamos falar sobre o Kevin” ganhou vários prêmios, mas não foi indicado a nenhum Oscar. Mas isso não importa: sua força está em prender o leitor / espectador e ficar com ele dias depois de a ficção ter acabado, ainda atormentando com debates existenciais difíceis de serem julgados.

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