14 de janeiro de 2014

O Tempo e o Vento (2013) - Papel e Película (Coluna)


Se houve um autor brasileiro que escreveu épicos, foi Érico Veríssimo. Sua obra “O Tempo e o Vento” é épica não apenas no volume (são ao todo sete livros), mas também na ambição: Érico conta a história do Rio Grande do Sul, seu estado natal, de 1745 a 1945. Se ler tudo isso já exige muito, imagine adaptar para o cinema ou televisão. Por isso a decisão de muitos cineastas e roteiristas é focar apenas nos personagens mais conhecidos. Foi o que aconteceu no filme de 2013.

Ana Terra, Pedro Missioneiro, Bibiana e o capitão Rodrigo são os personagens da primeira de três partes de “O Tempo e o Vento”, intitulada “O Continente”. As outras duas partes são “O Retrato”, sobre os conflitos entre campo e cidade no início do século XX, e “O Arquipélago”, que mostra os membros da família Terra-Cambará como participantes de momentos decisivos para o Brasil a partir da década de 1930.

As adaptações foram muitas. Uma história tão grande, que cobre um imenso período de tempo, teria de ser desmembrada de qualquer modo para ser contada pela mídia de entretenimento, e para isso sempre prevaleceu a escolha das situações e personagens mais conhecidos. De fato, as produções que chamamos de “O Tempo e o Vento” são na verdade encenações de “O Continente”, apenas. Isso inclui a elogiada e até hoje cultuada minissérie de 1985, que contava com Glória Pires como Ana Terra e Tarcísio Meira interpretando o capitão Rodrigo.

A história foi contada também em telenovela em 1967 e exibida pela extinta TV Excelsior. Para o cinema, a trama precisa ser ainda mais condensada, e os brasileiros solucionaram o problema enxugando ainda mais os temas e fazendo filmes focando em personagens ou episódios específicos. Em 1971, Anselmo Duarte, responsável pela consagração do Brasil em Cannes na década anterior, dirigiu “Um certo capitão Rodrigo”, projeto que estava há quase 20 anos na gaveta. Naquele mesmo ano outro projeto relacionado à obra de Veríssimo saiu do papel: o filme “Ana Terra”. Mas, 15 anos antes, em 1956, outra parte da história foi levada às telas: “O Sobrado”, com um jovem Lima Duarte como herói.

A adaptação feita em 2013 tem cara de novela. O elenco e o diretor são nomes constantes na grade da rede Globo. Mas não é preciso muito para ver que o filme extrapola as técnicas de produção e narrativa de qualquer folhetim. Se visto na tela do cinema, o cuidado com os ângulos para captar a natureza gaúcha fica evidente. A imagem repetitiva de uma árvore enquadrada pelo pôr-do-sol evoca a cena final de “E o vento levou...”.

Várias pessoas que viram o filme reclamaram de alguns detalhes de caracterização, como o excesso de maquiagem (todo mundo tinha os lábios bem rosadinhos) e a limpeza do set, afinal, a natureza deve ser suja e selvagem. Isso, entretanto, não atrapalha no andamento geral da película, que deve receber mais elogios que críticas em relação ao visual geral. Afinal, foram dois meses de gravações intensas no Rio Grande do Sul.

Todas as versões têm seus méritos. Obviamente, a maneira de abordar o material é diferente em cada uma delas, mas os resultados gerados sempre fizeram jus á grandeza de Érico Veríssimo. Para os fortes e obstinados, fica a opção de ler toda a saga. Para os que são mais preguiçosos (ou ocupados, ou sem paciência), dêem uma olhada na versão de 2013. Vocês não vão se decepcionar.


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