16 de dezembro de 2013

Gente como a Gente (1980) - Papel e Película (Coluna)


Foram muitas os atores (e até a atriz Ida Lupino) que trocaram de lado no set de filmagem e se tornaram diretores. Alguns faziam o trabalho dobrado e, além de dirigirem, também atuavam e eram responsáveis inclusive pelo roteiro e trilha sonora (tome Charles Chaplin como exemplo!). Robert Redford, galã dos anos 60 e 70, fez todo o processo de compra dos direitos de adaptação de um livro não publicado e, cansado de esperar o projeto sair do papel, decidiu ele mesmo dirigir o filme. O resultado não poderia ter sido melhor.

A vida de uma filha demasiado comum é virada de cabeça para baixo quando o filho mais velho, Buck, morre em um acidente de barco e o mais novo, Conrad (Timothy Hutton) tenta se suicidar. Tudo isso ocorre antes do começo da projeção. Quando iniciamos nossa jornada com a família, Conrad (Timothy Hutton) já está de volta depois de um longo período no hospital, mas isso não significa que ele esteja recuperado. O choque para a família foi imenso. A mãe, Beth (Mary Tyler Moore) não esconde que Buck era seu filho favorito, e o pai, Calvin (Donald Sutherland), é um homem apático.

Conrad decide se consultar com o douto Berger (Judd Hirsch), um psiquiatra que lhe foi indicado no hospital. Como a maioria dos médicos estereotipados da ficção, doutor Berger não é nem um pouco convencional, muitas vezes entra em confronto com seu paciente, mas faz maravilhas.

Robert Redford conseguiu uma cópia do livro “Ordinary People” quando este ainda estava no prelo, e ficou hipnotizado pela história, em parte porque se identificou com a abordagem dos assuntos familiares. Ele não perdeu tempo e marcou uma reunião com a autora Judith Guest, e comprou os direitos de adaptação antes mesmo de o livro ser publicado. Por possuir muitos diálogos e poucas descrições, a criação do roteiro foi mais difícil que o usual. Depois de mais de dois anos e meio de espera, Robert, que vinha sendo cotado para interpretar Calvin, decidiu que seria com esse filme que ele realizaria seu desejo de se tornar diretor. 

Judith Guest começou a escrever um conto e, percebendo que a história era grande demais para o formato, decidiu transformá-lo em um romance. Depois de largar o emprego de professora para terminar o manuscrito, ela começou a peregrinação em busca de uma editora, e chegou a receber uma carta que classificava seu livro como “satírico”. No final, o esforço valeu a pena e é fácil perceber que não há nenhuma sátira na maneira séria como assuntos como perda, suicídio e reavaliação da vida são tratados. O livro passou a ser leitura obrigatória em diversas escolas, mas foi banido em uma escola por ter uma linguagem imprópria e, pasmem, por ser muito depressivo.

Na noite de entrega do Oscar, aconteceu o improvável: “Gente como a gente” foi escolhido o Melhor Filme e Robert Redford, o Melhor Diretor. No páreo estava uma produção hoje considerada obra-prima: “Touro Indomável”, de Martin Scorsese. Pensando bem, o resultado era de se esperar, pois o filme de Redford é bem mais objetivo ao lidar com as emoções do público, o que o torna inesquecível para qualquer pessoa, enquanto que o de Scorsese, embora ousado e tocante, possa ser mais bem recebido pelos fãs de boxe, uma vez que conta a vida do campeão Jake LaMotta.

Timothy Hutton, outro estreante, levou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante. Embora ele seja o protagonista da história, foi uma decisão certeira nomeá-lo como coadjuvante, pois ele não teria chance contra o já consagrado Robert De Niro que, depois de uma transformação impressionante, ficou com o Oscar de Melhor Ator. Judd Hirsch, Mary Tyler Moore e Donald Sutherland foram muito elogiados por seus papéis, e apenas Sutherland não foi indicado ao Oscar. Mary conseguiu muita aclamação, pois se afastou do estereótipo de mãe e esposa divertida e perfeita que fazia na televisão.

Robert Redford dirigiu mais nove filmes depois de “Gente como a gente”. Timothy Hutton seguiu com sucesso em mais de 70 trabalhos, entre cinema e televisão. Elizabeth McGovern, que interpreta Jeanine, o interesse amoroso de Conrad, também estreou neste filme e vem também fazendo muito sucesso. Mary, Donald e Judd são atores reverenciados que continuam na ativa. A autora Judith Guest escreveu mais três livros, mas nenhum deles foi adaptado para outras mídias. Um filme feito de tantas “estreias” acabou se mostrando um excelente negócio.

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