18 de novembro de 2013

Mamãezinha Querida (1981) - Papel e Película (Coluna)


Você pensa que Madonna e Angelina Jolie foram as primeiras celebridades a se cercar de filhos adotivos? E que as biografias não-autorizadas e sensacionalistas são coisa recente? Pois está muito enganado. Uma das mais populares atrizes dos anos 1930 e 1940, Joan Crawford, adotou quatro crianças e, pouco após a sua morte, a filha mais velha, Christina, fruto do romance de dois adolescentes inconsequentes que a colocaram para a adoção, ao invés de ficar agradecida por ter tido uma chance ao ser adotada por uma estrela de cinema, publicou um livro em que coloca Joan como a pior mãe do mundo. Claro que o cinema não perderia a oportunidade de explorar essa faceta desconhecida de uma de suas grandes lendas.

Em 1940, a atriz Joan Crawford (Faye Dunaway) adota um bebê de maneira não muito lícita. Ela chama a menina de Christina e promete dar-lhe todos os luxos e, claro, alguma atenção da imprensa. Desde cedo, em seus aniversários, a pequena Christina (Mara Hobel) precisa se acostumar a posar para as fotos abrindo presentes, além de dar declarações de que ficará com apenas um dos presentes e doará o resto para orfanatos. Temos a impressão de que Joan adotou a garota (e, tempos depois, um garoto) apenas para conseguir publicidade. O que é retratado é que Joan é uma mãe muito diferente em frente e atrás das câmeras. Longe dos holofotes, ela é obcecada por limpeza, muito exigente e tem ataques histéricos ao ver cabides de metal no guardarroupa da filha.

O filme foi baseado no livro de mesmo nome escrito por Christina Crawford. Quem começa a ver o filme ou ler o livro sem conhecer os fatos pode muito bem se deixar convencer pela história de Christina. Vale lembrar que ela e o irmão, Christopher, não receberam nada da herança da mãe, que foi dividida entre as gêmeas mais jovens, Cynthia e Cathy, que não são sequer citadas no filme. E a película acaba profeticamente com a leitura do testamento, quando Christina, cheia de ódio, afirma que a mãe não dará a última palavra, já anunciando sua intenção de escrever o livro.

Muitas pessoas do meio artístico defenderam Joan Crawford logo após a publicação de “Mamãezinha Querida”, como Bob Hope, Ann Blyth, Myrna Loy e Douglas Fairbanks Jr, primeiro marido de Joan. Neste ponto até uma grande amiga de Joan, Barbara Stanwyck, e sua notória inimiga, Bette Davis, concordavam: Joan era uma boa mãe. Ironicamente, os filhos adotivos de Barbara e Bette também criticaram as mães após o falecimento delas. Outras estrelas ficaram do lado de Christina, dizendo que o comportamento de Joan era fruto de alcoolismo. 

Faye Dunaway esperava que o filme fosse um sucesso e desse a ela mais uma indicação ao Oscar e, com alguma sorte, seu segundo prêmio da Academia. Afinal, Faye viu dezenas de filmes com Joan Crawford, se esforçou muito para compor a personagem e inclusive chegava todos os dias ao estúdio às quatro da manhã e demorava três horas para fazer o cabelo e a maquiagem. Mas tudo correu bem diferente do que Faye esperava: embora o filme tenha sido um sucesso de bilheteria, o único prêmio que ela ganhou foi o Razzie, mais conhecido como “Framboesa de Ouro” de Pior Atriz. Aliás, “Mamãezinha Querida” é o grande recordista da premiação: além de ter levado quatro prêmios (incluindo Pior Filme, Pior Atriz e Ator Coadjuvantes e Pior Roteiro), ainda ganhou o título de Pior Filme da Década.

Nem mesmo Christina Crawford gostou do filme. Ela o considerou exagerado, focando demais em Joan e inclusive disse que sua mãe não merecia uma cinebiografia como aquela. Obviamente, os questionamentos sobre livro e filme giram em torno da questão da veracidade de ambos. Pesa muito o fato de Christina ter sido excluída do testamento, e alguns biógrafos afirmam que isso aconteceu justamente porque Joan soube que a filha estava escrevendo um livro difamatório sobre ela. Outras pessoas que conheceram mãe e filha afirmam que Christina queria ser tão famosa quanto Joan, mas conseguiu apenas pequenos papéis e ficou extremamente chateada em 1968 quando, se recuperando da retirada de um cisto no ovário, foi substituída pela mãe em uma telenovela.

Com o tempo, o filme ganhou status de cult e, ainda mais, camp/trash. Pode ser definido por uma frase: é tão ruim que chega a ser bom. Visto com olhos menos críticos, “Mamãezinha Querida” não é um filme péssimo, e o esforço de Faye Dunaway deve ser destacado, embora em algumas cenas seus penteados beirem à bizarrice. No final das contas, estamos diante de um filme que, a não ser por contar uma história falsa e difamatória, é até interessante.

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