25 de agosto de 2013

O Processo (1962) - Papel e Película (Coluna)


Adaptar Kafka para o cinema não é tarefa fácil. Prova disso é que poucos tentaram, quase todos fora do eixo Hollywoodiano. Dito isso, caberia a um cineasta “maldito”, considerado difícil de trabalhar e megalomaníaco, a tarefa de adaptar “O Processo”, dirigir o filme e ainda interpretar um personagem de extrema importância. Só podia ser Orson Welles o responsável por levar Kafka às telas.


Josef K (Anthony Perkins) acorda no dia de seu aniversário de 30 anos e recebe a visita nada honrosa de policiais que o intimam: ele está sendo processado. A razão de seu problema na justiça nunca será revelado, e este sequer é relevante: não importa o motivo, o que importa é a odisseia de K, que jamais imaginara que uma situação como essa ocorreria com ele, um cidadão tão pacato.

Nada mais certo para essa adaptação que ser filmada em preto e branco. O clima de pesadelo, de perseguição, não poderia ser atingido com um filme a cores. A aparência geral da sequência em que K vai falar com um pintor que pode lhe ser útil no processo é sufocante, assim como o ambiente em que vive o pintor. O set vertiginoso em que a cena foi gravada ajuda e muito a criar desespero.

Sempre envolvido em diversas etapas do processo de produção, Welles foi responsável pela transformação da obra em um roteiro bastante fiel. Ele também interpreta o corrupto e praticamente inútil advogado, chamado aqui de Albert. A ideia inicial de Welles era interpretar um padre que tem uma conversa reveladora com K na Igreja, mas Jackie Gleason recusou o papel do advogado. A saída foi transformar a parte do padre em um prólogo, que é muito bem construído com imagens sendo formadas em uma tela chamada de “pin-screen”.

Welles havia tido muitos problemas com os estúdios de Hollywood, atrasando filmagens e criando filmes longos que depois eram exageradamente editados. Mesmo “Cidadão Kane” não era devidamente reconhecido, e Welles tinha problemas para encontrar emprego no sistema de estúdio vigente. Por outro lado, Anthony Perkins estava estereotipado como intérprete de personagens bonzinhos e sua recente atuação como Norman Bates em “Psicose” havia ajudado a criar uma aura de psicopatia em torno de sua persona cinematográfica. Era na Europa, local de experimentações e onde os diretores e atores eram mais importantes que os estúdios, que ambos buscaram refúgio.

Foi o produtor Alexander Salkind que propôs a Welles a adaptação de um livro em domínio público para o cinema, com total liberdade criativa. O filho de Welles mencionou que “O Processo” daria uma boa peça de teatro, dando a ideia ao pai de usar essa grande obra como base. O problema é que o livro não estava em domínio público. Mesmo assim, Salkind manteve a promessa e comprou os direitos de adaptação do livro. Welles rearranjou a ordem dos capítulos, que já tinha sido arranjada por Max Brod, responsável pela publicação desta que é uma obra póstuma. Kafka começou a escrevê-lo em meio à Primeira Guerra Mundial, em 1914, mas nunca o terminou. Curiosamente, Welles teve um histórico de projetos ambiciosos não terminados, entre eles um making-off de “O Processo”.

Passando quase despercebido na época de seu lançamento, “O Processo” persiste por ser uma fiel adaptação de um clássico, e também por seu caráter libertador. Obra criada por nomes que não tinham seu talento devidamente reconhecido em Hollywood, o filme se tornou Cult e obrigatório para todos que gostam de uma boa reflexão.

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