11 de agosto de 2013

As Aventuras de Pi (2012) - Papel e Película (Coluna)


Havia algum tempo que o grande ganhador da noite do Oscar não causava tanta polêmica. Ou melhor, polêmica em território brasileiro. “As aventuras de Pi”, ganhador de quatro Oscars, inclusive Melhor Diretor para o taiwanês Ang Lee, reacendeu o debate sobre plágio ao relembrar uma novela cheia de significados escrita pelo autor Moacyr Scliar.

Max Schmidt é um menino crescendo na Alemanha nazista. Seu pai possui uma loja de peles, onde fica exposto um tigre de Bengala empalhado que apavora Max desde a mais tenra infância. A mãe de Max é muito zelosa com o filho, mas precisa suportar o marido violento. Com a tomada de poder pelos nazistas, Max passa a ser ameaçado, em especial devido à sua amizade com Harald, um jovem contrário ao Nazismo. A única solução é fugir do país, e ele pega o segundo navio que zarpa para o Brasil. No meio do Atlântico o navio afunda e Max se vê em um escaler, um pequeno barco, com um jaguar. 

Piscine Molitor Patel foi batizado em homenagem a uma piscina, da qual seu tio, um exímio nadador, sempre falava. Além de aprender a nadar, Pi também acumulou conhecimentos nas áreas de zoologia e botânica, respectivamente especialidades do pai e da mãe, e em religiões (ele queria seguir três ao mesmo tempo). Outra façanha foi memorizar muitas, muitas, muitas casas decimais do pi (π), o número que rendeu seu apelido. Mas a façanha maior de Pi ainda estava por vir. No final da adolescência, a família toda do garoto decidiu começar vida nova no Canadá. A bordo de um navio japonês, levando alguns dos animais do zoológico no convés para serem entregues aos compradores americanos, Pi acorda no meio de uma tempestade. O barco afunda, pai, mãe e irmão perecem, mas Pi consegue lugar em um barco salva-vidas. Ele não está, contudo, sozinho: seus companheiros são uma zebra, uma hiena, um orangotango e um tigre de Bengala, animal do qual ele tem pavor, graças a uma carraspana do pai quando o menino Pi estava alimentando o felino.

Analisando as duas obras, apenas o naufrágio junto a um felino feroz as aproxima. Sim, mesmo mudando os nomes dos personagens e o cenário da ação, mas mantendo um fio condutor tão semelhante e necessário, há um caso de plágio. Entretanto, as diferenças saltam aos olhos: o naufrágio de Pi é a parte principal da história, o de Max, apenas metade do enredo. Pi teve a existência de Deus provada com sua aventura, Max viu no jaguar mais um de seus traumas. Pi chegou no Canadá e teve uma vida tranquila, contada por alto; Max enfrentou mais problemas de adaptação ao chegar ao Brasil. 

A maior qualidade do filme é a sua beleza. Desde os créditos iniciais, uma profusão de cores toma conta da tela com as imagens do zoológico. Por parte do filme passar-se na Índia, não poderíamos esperar outra coisa senão o colorido das roupas e das ruas. Em alto-mar, as imagens são de tirar o fôlego, graças a muitos efeitos especiais que impediram o ator de correr qualquer risco, uma vez que ele nunca precisou ficar frente a frente com o tigre. 

“Max e os Felinos” funciona bem como livro. A trama se desenrola por mais de um acontecimento, ou seja, não é só o naufrágio. Moacyr Scliar disse quês este é um livro político, escrito durante a ditadura (1981), e por isso é melhor que as reflexões demorem o quanto o leitor desejar demorar em cada página. “As aventuras de Pi” parece ter nascido para a tela e para ter sido filmado em uma época de efeitos especiais bem desenvolvidos.

A adaptação do livro para o cinema reacendeu a discussão sobre plágio que começou logo após Yann Martel ganhar o prestigiado prêmio Man Booker Prize em 2002. Quando ficou a par do ocorrido, Moacyr Scliar declinou a possibilidade de processar o autor canadense por plágio. Certamente o plágio existe há séculos, ainda mais se considerarmos que as leis de direito autoral são recentes. Hoje nos perguntamos se Homero de fato existiu e mesmo se Shakespeare foi 100% original (ou ninguém percebeu que a história de amor proibido de Romeu e Julieta é bastante semelhante à de Tristão e Isolda?). Sem dúvida várias ideias que os escritores têm já foram escritas antes e, como escritora, abominarei se um dia alguém me plagiar. O que realmente deveria chatear Moacyr e todos os brasileiros foi o comentário de Martel ao ser perguntado sobre a polêmica pela primeira vez: ele disse que havia apenas utilizado uma ideia mal-desenvolvida por um autor brasileiro. Quem conhece a ficção de Scliar sabe que ele era incapaz de desenvolver mal uma ideia. 

Cada um que julgue a questão por si mesmo. Se o próprio Moacyr se esqueceu da questão e já havia falecido quando da estréia do filme, cabe aos leitores / espectadores tirarem suas próprias conclusões. E, com isso, terão também a oportunidade de conferir grandes obras, originais ou não.

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