29 de julho de 2013

A Escolha de Sofia (1982) - Papel e Película (Coluna)


O Holocausto, talvez o assunto mais sério do último século, é também um dos que causam mais comoção e indignação nas pessoas. Graças a essa erupção de emoções, o cinema passou a explorar a tortura dos judeus nas mãos dos nazistas. Algumas histórias reais, como a de Anne Frank, foram logo adaptadas para as telas, enquanto outras fictícias, mas verossímeis, foram surgindo em máquinas de escrever.

A máquina de escrever, aliás, é o instrumento de trabalho do jovem aspirante a escritor Stingo (Peter MacNicol) que vai morar em uma pequena pensão no Brooklyn em 1947. Ele conhece sua vizinha de maneira pouco amigável: através dos ruídos causados pela briga dela com o namorado. Mas logo Sophie (Meryl Streep) se mostra uma mulher simpática, porém sofrida. E seu namorado, Nathan (Kevin Kline), por sua vez, é um judeu muito inteligente, mas perturbado. Os três amigos passam muito tempo juntos e Stingo recebe muito apoio de Nathan para sua carreira. E é aí que os problemas começam a aparecer.

Para quem não viu o filme, ele é mais lembrado por contar com a situação de uma mãe que precisa escolher qual dos seus filhos vai morrer logo ao entrar em um campo de concentração. Entretanto, este é só um detalhe, embora de grande importância, em uma história maior.

Muitas vezes a performance de Meryl Streep no filme foi considerada a “melhor atuação feminina de todos os tempos”. De fato, ela está muito bem, com um sotaque perfeito (ela aprendeu alemão e polonês para o filme) e uma presença quase fantasmagórica. Barbra Streisand bem que tentou ser escalada para o papel, mas o lobby de Meryl foi mais efetivo. Outras opções eram Natalie Wood e Liv Ullmann, embora o autor do livro o escrevesse com Ursula Andress, a primeira Bond-girl em “007 contra Dr. No”, em mente.

William Styron já tinha um prêmio Pulitzer ao publicar “A escolha de Sofia” em 1979. No livro, há um interessante paralelo entre o Holocausto e a escravidão negra no sul dos Estados Unidos. Por mais de uma vez, no filme, Nathan aponta que Stingo deve estar acostumado aos linchamentos de negros, porque é sulista. Em 1947, embora a escravidão tivesse sido abolida há mais de 80 anos, ainda havia segregação racial no sul. O livro que deu a William seu Pulitzer, “As confissões de Nat Turner”, tratava da escravidão. “A escolha de Sofia” surgiu de uma experiência real do autor, que viveu no Brooklyn nos anos 1940 e conheceu uma bela judia sobrevivente de Auschwitz, mas perdeu contato com ela tempos depois.

A adaptação foi bastante fiel, embora algumas sub-tramas tenham sido deixadas de lado para que o filme de duas horas e meia não ficasse ainda mais longo. Mais um pouco bem que poderia ter sido eliminado, como a experiência de Stingo com uma garota fogosa, que nada acrescenta ao desenrolar da história. Alan J. Pakula, o diretor, já havia sido produtor de outra excelente adaptação: “O sol é para todos”, em 1962.

Kevin Kline, hoje um pouco no limbo, está excelente nesse que foi seu segundo filme. Logo após ver a performance do novato, John Cleese, ex-integrante do grupo de comédia inglês Monty Python, decidiu escalá-lo para o filme que lhe daria o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante: “Um peixe chamado Wanda”, de 1988. Peter MacNicol, que também fazia então seu segundo filme, pode não ser um grande nome, mas marcou presença em séries de televisão recentes como “Grey’s Anatomy” e “24 horas’, além de vários trabalhos no teatro.

Indicado a cinco Oscars mas levando apenas um, o de Melhor Atriz, “A escolha de Sofia” é capaz de tocar mesmo os que nenhuma ligação têm com o Holocausto ou a maternidade e é um dos filmes essenciais para que uma tragédia tão grande nunca seja esquecida ou repetida.


Letícia

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