16 de junho de 2013

Zorba, O Grego (1964) - Papel e Película (Coluna)


Ah, a Grécia! O berço da civilização ocidental, com suas ruínas milenares, as praias de areias brancas e mar azul-piscina, de gente alegre que depois dos banquetes quebra os pratos em uma dança contagiante. Esqueça a Grécia dos folhetos turísticos. No livro escrito por um nativo e que deu origem a um surpreendente filme, prepare-se para encontrar velhas fofoqueiras e egoístas, xenofobia, preconceito e valores bastante arcaicos.

Basil (Alan Bates) é um escritor inglês sofrendo de bloqueio criativo que decide voltar às origens e ir ver a mina que seu pai lhe deixou na Grécia. Em um ponto de parada em Creta ele conhece Alexis Zorba (Anthony Quinn), um grego maluco que se oferece para acompanhar na viagem, em qualquer função. Desde o início Zorba se mostra muito alegre e conquista de imediato o público e Basil, que afinal o aceita como companhia de viagem e, que coincidência, sócio no negócio de mineração.

A cidadezinha em que eles chegam está longe de ser Atenas ou qualquer ponto turístico das ilhas gregas. Arcaica e arenosa, ela lembra as paisagens áridas de “A estrada da vida”, protagonizada dez anos antes também por Anthony Quinn. Na cidade eles se hospedam com Madame Hortense (Lila Kedrova), uma francesa cheia de luxúria que perdeu os quatro generais que namorava em uma mesma batalha e assim ficou rica. 

Em uma visita à cidade Basil se encanta por uma jovem viúva sem nome (Irene Papas), que é provocada e escorraçada pelo povo. Como fica notado e anotado, o fator de ela ser muito bonita mas ao mesmo tempo ninguém poder tê-la é a razão de seu martírio pelo povo. Quando ela começa uma relação silenciosa com Basil, tem-se a gota d’água para que ela seja condenada. Literalmente.

A trama foi baseada na história que o autor cretense Nikos Kazantzakis viveu durante a Primeira Guerra Mundial. O mineiro macedônio Georges Zorba o ajudou a fazer funcionar uma mina que havia herdado do pai no Peloponeso. Mesmo assim, Nikos decidiu situar a ação no início dos anos 30, embora no filme não seja especificada a data. Por isso, não se preocupe: muitos dos costumes arcaicos e absurdos mostrados no filme já foram deixados de lado pelos cretenses e gregos em geral.

Nikos Kazantzakis escreveu outros livros, tendo inclusive protagonizado uma situação curiosa no mundo literário: em 1953, ele perdeu o Nobel de Literatura para Albert Camus por apenas um voto. Camus se prontificou a afirmar que Kazantzakis merecia o prêmio um milhão de vezes mais que ele. Outra obra de Nikos adaptada para o cinema é “A última tentação de Cristo” (1988), uma vez que o autor “experimentou” diversas doutrinas religiosas ao longo da vida.

Nikos faleceu em 1958, e a adaptação de seu romance para as telas ficou por conta do diretor Mihalis Kakogiannis, também grego, que tem seu nome nos créditos americanizado para “Michael”. Ele também foi o produtor do filme e responsável por boa parte da escalação do elenco e da equipe técnica.

O ator mexicano Anthony Quinn conseguiu içar sua carreira de coadjuvante para principal durante a Segunda Guerra Mundial, quando muitos atores estavam combatendo na Europa ou viajando pelo país vendendo bônus de guerra. Quinn interpretou as mais diferentes nacionalidades nas telas, de índio americano a português, mas certamente Zorba é seu personagem mais marcante, e os momentos de dança, embalados pela música inesquecível de Mikis Theodorakis, são icônicos. Curiosamente, uma parte da dança surgiu quando Quinn inventou alguns giros no lugar de passos de dança para compensar o pé quebrado durante as filmagens. Quinn foi indicado ao Oscar por sua atuação, tendo já ganhado dois prêmios de Melhor Ator Coadjuvante nos anos 1950.

O filme ganhou três estatuetas do Oscar: Melhor Fotografia em Preto e Branco, Direção de Arte – Decoração, e Atriz Coadjuvante para Lila Kedrova. Nos anos 80, Lila e Anthony Quinn voltariam a se reunir para a versão teatral de Zorba, com Lila ganhando o Tony de Melhor Atriz Coadjuvante. O filme foi recusado por vários atores e estúdios importantes, e foi filmado com um orçamento relativamente baixo, atingindo depois enorme sucesso. Prova de que, das várias lições de vida que Zorba ensina a Basil e aos espectadores, também está a de que devemos ser perseverantes.




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