3 de junho de 2013

O Discurso do Rei (2010) - Papel e Película (Coluna)


Nos três últimos anos, houve uma curiosa constante no Oscar: atores e atrizes ganharam a estatueta ao interpretar pessoas reais, todos eles chefes de Estado. Em 2013 Daniel Day-Lewis viveu o presidente Abraham Lincoln, em 2012 Meryl Streep interpretou a primeira-ministra Margaret Thatcher e em 2011 Colin Firth ganhou o Oscar ao interpetar George VI, rei da Inglaterra por acaso. A história real, bastante surpreendente, virou filme pelas mãos de um desconhecido e livro através dos esforços do neto de um dos personagens principais.

Mesmo se não fosse rei, Albert Frederick Arthur George teria um desafio à frente: controlar sua gagueira. Quando o filme começa, em 1925, ele, ainda duque, tem seu discurso interrompido pela gagueira durante uma corrida de cavalos. Sua esposa Elizabeth (Helena Bonham Carter) procura então o maior especialista no assunto, Lionel Logue (Geoffrey Rush), um terapeuta que usa métodos bastante incomuns. Albert consula o médico, não sem muita resistência, e só a amizade do doutor é capaz de convencê-lo a deixar de lado a primeira impressão e confiar no tratamento.

Com a morte de seu pai e a bombástica notícia de que o irmão mais velho abdicou ao trono para se casar com a socialite americana Wallis Simpson, Albert precisa usar o meio de comunicação mais popular em 1936, o rádio, para que seus pronunciamentos chegassem à população. Passado esse desafio inicial no reinado, estoura a Segunda Guerra Mundial e a firmeza no discurso do rei não é apenas importante para passar um comunicado ao povo, mas também fundamental para transmitir tranquilidade em tempos difíceis.

O autor do roteiro, David Seidler, foi gago na infância e ouviu o discurso histórico do rei ainda muito criança. Quando soube mais sobre a trajetória e a gagueira de George VI, David escreveu à rainha mãe Elizabeth pedindo permissão para contar a história do falecido marido. Ela respondeu que ele só poderá fazê-lo depois da morte dela, uma vez que a repercussão da obra traria de volta memórias de uma época muito difícil. 

David Seidler escreveu sobre a amizade de Albert e Lionel diretamente para as telas, mas, pegando carona no sucesso do filme, Mark Logue, neto do terapeuta, escreveu com Peter Conradi o livro “O Discurso do rei: como um homem salvou a monarquia britânica”. Baseando-se nos diários e arquivos do vovô, Mark conta a mesma história com muito mais riqueza de detalhes, além de adicionar fotos da época.

Embora a história do rei seja bastante interessante para o público, a de Lionel é tão curiosa quanto. Tendo fracassado na carreira de ator, ele tornou-se autodidata e aprendeu todo o necessário para tornar-se terapeuta da fala sozinho. Situação semelhante viveu a irmã do ator Colin Firth, que contou com a ajuda dela para criar o personagem. Quase vinte e cinco anos antes, em 1987, Firth já havia interpretado um personagem gago em “A month in the country”, que, ao contrário deste filme, não teve muito sucesso.

A escalação de Geoffrey Rush para o papel do terapeuta que rouba a cena, sem dúvida um dos mais adoráveis coadjuvantes dos últimos anos, foi pouco usual: com o intuito de conseguir grandes nomes para a produção, foi dada uma missão para um membro da equipe que vivia próximo de Geoffrey: colocar o roteiro na caixa de correio dele. Para sorte de todos, Geoffrey aceitou fazer o filme. Mais improvável que esse episódio foi como o diretor Tom Hooper se envolveu com o projeto: através de uma dica da mãe!

Além do Oscar de Firth, a produção ganhou os prêmios de Melhor Filme, Diretor e Roteiro Original, sendo David Seidler o mais velho ganhador na categoria, aos 73 anos. A premiação foi uma surpresa, tendo em conta que o ganhador de Melhor Filme no Globo de Ouro foi “A rede social”. Helena e Geoffrey, apesar de estarem excelentes em seus papéis, representando os dois maiores apoiadores de George VI, não levaram estatuetas na grande noite. Com uma história real e inspiradora, “O discurso do rei” mostra que um monarca não precisa apenas de súditos para governar, mas também de amigos.

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