19 de maio de 2013

Os Meninos do Brasil (1978) - Papel e Película (Coluna)


Não espere ver garotos bronzeados nas praias, contos da favela, a história de um time de futebol ou qualquer outro estereótipo relativo ao nosso país tropical. O título do filme e do livro que lhe deu origem, embora faça sentido, em nada revela que a história que estamos prestes a ler ou ver envolve nazistas, experiências genéticas e o mais perturbado ser que já exerceu a medicina: Josef Mengele. 

Um garoto judeu faz uma investigação por conta própria no Paraguai e descobre que o doutor Josef Mengele (Gregory Peck) mandou matar 94 homens com 65 anos, em diversos locais do mundo. Ele tenta se comunicar com o famoso caçador de nazistas Ezra Lieberman (Laurence Olivier), que a princípio não acredita no rapaz. Quando a situação fica séria e mortes começam a acontecer, Lieberman decide investigar, visitando algumas das famílias abaladas pela tragédia. O que ele encontra é incrível: além de jovens esposas extremamente conformadas com a viuvez, ele vê que os filhos são muito parecidos, na fisionomia e personalidade. Não são gêmeos, nem trigêmeos, mas sim clones. Clones de Hitler.

O autor é o mesmo de “O bebê de Rosemary”, best-seller que foi adaptado com sucesso para o cinema em 1968. O nome deste filme, que tanto desmoraliza nosso país, vem do fato de que na história os embriões eram contrabandeados por uma aeromoça da Varig. Não que o Brasil não tenha sua ligação com o nazismo: alguns médicos nazistas vieram para cá, por ser a América Latina um local difícil para um fugitivo ser localizado. O próprio Mengele se refugiou na Argentina, Uruguai e Paraguai, casou-se com sua ex-cunhada, sempre com identidade falsa, passando seus últimos tempos no Brasil e morrendo afogado em Bertioga, um ano após o lançamento do filme. Mesmo assim, ainda há uma teoria de que a ossada que, em 1985, foi confirmada como sendo de Mengele, é na verdade de um sósia.

A trama só poderia surgir de mais uma das loucuras de Mengele: a certeza de que garotos com o mesmo DNA, criados em condições de vida semelhante, teriam todos a mesma personalidade. Mas quem fez, cheio de convicção, experiências bizarras envolvendo esterilização, transplantes primitivos de medula óssea, criação em laboratório de gêmeos siameses e injeção de corante para mudar a cor dos olhos era bem capaz de pensar em clonagem! 

A história se passa em 1974, sendo que o livro foi publicado em 1976. Até então não se sabia que Mengele estava no Brasil.Na verdade, as atrocidades do médico só vieram a público após a extradição de um nazista da argentina em 1959, o que obrigou Mengele a sair desse país, e a publicação de um livro de memórias de um médico judeu que chegou a Auschwitz como prisioneiro e acabou se tornando ajudante de Mengele em seu laboratório. Sabe-se por esse relato que, se não havia planos de clonagem, ao menos Mengele tinha a intenção de promover gestações múltiplas de maneira a rapidamente repovoar as regiões conquistadas com população ariana. 

Gregory Peck interpreta aqui o único vilão de sua carreira. Ele é mais conhecido pelo íntegro protagonista de “O sol é para todos / To kill a mockingbird” (1962), pelo qual ganhou o Oscar. Laurence Olivier, famoso ator inglês, havia interpretado um médico nazista fictício dois anos antes, em “Maratona da morte / Marathon man”, e aqui muda de lado. O próprio James Mason, em uma pequena participação como nazista, havia interpretado em dois filmes na década de 1950 o militar Erwin Rommel, que pensou seriamente em matar Hitler durante uma conspiração.

Nem o livro nem o filme foram sucessos arrasadores. A indicação de Gregory Peck no Globo de Ouro e de Olivier ao Oscar certamente atraíram mais atenção para o filme. Com uma sólida base histórica, que torna ainda mais assustadora a hipótese de a trama ser verdadeira, este filme é um embate de forças entre grandes personagens e grandes atores.



Letícia

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