21 de abril de 2013

Livros, Filmes e... Novelas (1971 e 2005) - Coluna Papel & Película


É de conhecimento geral que novela é uma paixão nacional, embora ultimamente haja controvérsias, pois surgem outras alternativas de entretenimento no horário nobre. Antes da popularização da televisão, havia no Brasil dois principais meios de comunicação que atraíam o público: o rádio e, claro, o cinema. Aproveitando-se de nosso passado, um livro escrito em 1950 passeou por essas diversas mídias, e permanece como um relato da abolição: Sinhá Moça.

A jornalista Maria Dezonne Pacheco Fernandes já tinha três livros publicados quando lançou Sinhá Moça, seu segundo romance, em 1950. Ambientado nos anos finais do reinado de Dom Pedro II, quando os debates sobre o fim da escravidão dominavam a vida brasileira não apenas na política, mas também dentro das casas, o livro conta a história da heroína homônima, uma abolicionista confessa em meio a uma família conservadora. Voltando de São Paulo, ela encontra no trem Rodolfo, filho de um médico da cidade, que se revela escravista para ela, mas na verdade é um líder do movimento abolicionista e planeja fugas de escravos.

Em 1953 foram negociados os direitos do livro para o cinema e o marido da autora, então presidente do banco Banespa, ajudou a financiar o projeto do estúdio Vera Cruz. Um dos galãs da época, Anselmo Duarte, que mais tarde se tornaria um cultuado diretor e ganharia a Palma de Ouro em Cannes, ficou com o papel do mocinho e Eliane Lage, estrela em ascensão e esposa do diretor da película, Tom Payne, foi escalada para viver a personagem-título. 

As duas adaptações para a televisão foram ao ar no horário das seis, comumente reservado para os folhetins de época. Para a história do livro durar mais de cem capítulos, foi necessário modificá-la e acrescentar personagens. Coube ao autor Benedito Ruy Barbosa fazer essa reformulação e juntar Sinhá Moça a Rodolfo desde o início. O remake ficou a cargo das duas filhas do autor, hoje aposentado.

A primeira versão, em 1986, contou com Lucélia Santos, protagonista da mais bem-sucedida novela brasileira no exterior, “A escrava Isaura”, Marcos Paulo e Rubens de Falco como o barão de Araruna, pai de Sinhá Moça. Vinte anos depois, os protagonistas foram Debora Falabella, Danton Mello e Osmar Prado. Milton Gonçalves foi o único a repetir seu papel na segunda versão. Não é de se espantar que o esmero com figurinos e objetos de época seja uma das principais atrações da novela. A versão de 2006 chegou inclusive a ser indicada a um Emmy Internacional.

Maria Dezonne morou boa parte de sua juventude em Araras e baseou várias das passagens em situações reais que ela presenciou. Dessa forma, seria ela própria a Sinhá Moça, ou melhor, Sinhá Moça seria a idealização da autora em finais do século XIX. Maria incluiu seus próprios sentimentos com relação à escravidão em sua heroína. Já os homens que facilitavam as fugas de escravos eram todos verdadeiros, inspirados em figuras da época e descritos para a autora pela negra que a criou, Virgínia, que curiosamente interpreta a mucama negra de Sinhá Moça no filme.

O filme colheu frutos internacionais. Ruth de Souza, intérprete da escrava Sabina, foi a primeira atriz brasileira indicada a um prêmio de atuação no Festival de Veneza, ficando em segundo lugar. A primeira negra a atuar no Teatro Municipal, Ruth participou da novela de 2006. Várias menções honrosas em festivais internacionais se somaram ao sucesso nacional e Eliane Lage, hoje pouco lembrada, foi consagrada Melhor Atriz com o extinto Prêmio Saci.

Para quem não tem a paciência de ver todos os capítulos da novela, ficam o livro e o filme, ambos retratos poderosos de uma época fundamental de mudanças na história do Brasil.


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