13 de janeiro de 2013

Histórias Cruzadas (2011) - Coluna Papel & Película



Os anos 1960 no sul dos Estados Unidos foram mais que o psicodelismo e as mudanças culturais e sociais da época. Historicamente uma região mais conservadora, este lugar manteve a lógica escravista durante mais de um século. Foi necessário, na ficção, que uma jovem do local, totalmente diferente de seus conterrâneos, abrisse os olhos e mostrasse a realidade dos trabalhadores negros. E essa é a trama de “Histórias Cruzadas”.
Skeeter (Emma Stone) é uma jovem recém-formada que volta para sua cidade natal, Jackson, no Mississippi, determinada a se tornar jornalista e escritora. No entanto, a primeira tarefa que lhe é delegada pelo dono do jornal local é assumir uma coluna sobre dicas caseiras, assunto que ela não domina. Vendo-se sem sua empregada desde que chegou, Skeeter decide pedir ajuda a Abilene (Viola Davis), empregada da amiga Elizabeth. Depois de coletar algumas dicas e de observar como as empregadas são tratadas por seus patrões, Skeeter propõe a Abilene que conte sua história para que ela escreva um livro. Antes resistente à ideia, Abilene aceita ajudá-la, uma vez que isso amenizará a dor dela pela morte do filho.
Embora a escravidão tenha sido oficialmente abolida nos Estados Unidos em 1865, com o fim da Guerra Civil Americana, vários estados do sul, mais conservadores e com grande número de ex-escravos, continuaram com leis segregacionistas e tinham um preconceito latente até pouco tempo atrás. O filme se passa nos anos 1960 e os negros vivem em uma parte separada da cidade e têm como única opção o serviço pesado para os homens e o emprego de empregada para as mulheres. Muitas negras criam e criaram crianças brancas que, como observa Abilene no início do filme, tornaram-se tão mesquinhas e preconceituosas quanto os pais depois que crescem. Skeeter é uma exceção, pois se lembra com carinho da negra que a criou e fica indignada ao saber que ela havia sido demitida, e o porquê da ação. 
Kathryn Stockett escreveu o livro baseando-se em sua própria infância na cidade de Jackson. A autora do livro foi muito persistente, uma vez que, depois de passar cinco anos escrevendo-o, seu original foi recusado SESSENTA vezes por agentes literários até ser finalmente publicado, em 2009. Logo se tornou sucesso de crítica e best-seller. Tate Taylor, amigo de infância da autora, foi o responsável pelo roteiro e pela direção do filme.
Dois grandes destaques do filme são Jessica Chastain e Octavia Spencer. Octavia interpreta Minny, empregada da família Holbrook, cuja filha Hilly (Bryce Dallas Howard) é a maior vilã do filme. Nojenta, antipátia e preconceituosa, ela não pensa duas vezes antes de humilhar sua empregada ou mesmo mandar sua mãe para o asilo. Já Jessica interpreta Celia Foote, uma “caipira” desprezada pelas outras moças da cidade, mas que se casou com o homem mais cobiçado de Jackson e vive em uma bela mansão. Ela contrata Minny e trata-a muito bem. Seu jeito simples, agradável e até mesmo ingênuo se contrapõe à empregada de atitudes positivas, transformando-as em uma dupla curiosa. Octavia ganhou o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel. A própria Kathryn afirmou que baseou a personagem Minny na personalidade da atriz.
Skeeter não tem de se preocupar com correr atrás de uma editora quando o livro já estiver pronto, uma vez que ela já tem quem irá publicar sua história. Aqui, como em muitas narrativas que envolvem longas pesquisas, o mais árduo é entrevistar as empregadas. Além de ter de vencer a desconfiança de cada uma delas, Skeeter também deve ficar forte em seu propósiro, uma vez que está indo contra a norma vigente em toda uma cidade. Por isso ela decide publicar seu livro, intitulado “The Help”, como anônima. Para a maioria dos leitores, a supressão de nomes em nada afeta a história, mas algumas pessoas de Jackson saberão exatamente que histórias suas foram contadas para o mundo.
Muitos livros e personalidades são citados ao longo da história. No filme, vemos Martin Luther King na televisão, o que chama a atenção da família de Skeeter. A moça também cita “O sol é para todos” e “E o vento levou...”, tendo este último uma personagem negra que criou a protagonista. “O homem invisível” também é citado na novela, uma vez que Abilene diz que seu filho imaginou contar a história de negros que trabalham para os brancos após ler este livro. No filme, a ideia parte de Skeeter, embora o filho de Abilene seja citado por ter sempre dito que um dia haveria um escritor na família.
Através da amizade que se desenvolve entre Skeeter, Abilene e Minny, o assunto sério do preconceito e segregação racial é tratado de forma realista, porém leve. Com algumas mudanças a partir do livro que em nada atrapalham a essência da história, este filme mereceu a atenção que recebeu na temporada de premiações de 2012, sendo ao mesmo tempo tocante, honesto e inteligente.

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