16 de dezembro de 2012

Fahrenheit 451 - Coluna Papel & Película


O horror, o horror: um mundo em que a leitura é proibida. Este é o cenário do livro “Fahrenheit 451”, do escritor de ficção científica Ray Bradbury. Um mundo sem qualquer tipo de material escrito faria a capacidade de raciocínio do ser humano ser bem menor e qualquer pessoa mais questionadora seria vista como ameaça. Tal enredo se mostra perfeito para o cinema, mas não é para as mãos de qualquer diretor. Por isso a adaptação para as telas ficou a cargo do perspicaz e sensível François Truffaut, um dos maiores nomes do cinema francês.

O bombeiro Guy Montag (Oskar Werner) acha incrível que um dia seus colegas de profissão tenham tido como função apagar incêndios, porque agora o que um bombeiro faz é queimar os perigosos livros que são encontrados nas casas das pessoas. A partir de uma missão em que uma senhora morre queimada porque não queria soltar um livro, Montag fica curioso com esses objetos que devem ser tão valiosos. Isso ocorre ao mesmo tempo em que uma nova vizinha, Clarisse (Julie Christie), se aproxima dele e começa a questioná-lo sobre questões filosóficas. Ele então passa a ver como sua mulher, Linda (também Julie Christie), assim como outras pessoas, vivem em um mundo vazio de sentido. A atividade principal da vida de Linda, por exemplo, é interagir com seus conhecidos em uma imensa tela de televisão que cobre toda a parede da sala. 

Ray Bradbury escreveu o livro em 1953 e deu o título 451 por um bombeiro ter lhe dito que esta é a temperatura em que o papel entra em combustão. Evidente que o bombeiro não sabia a resposta e inventou um número qualquer para Bradbury, uma vez que 451 graus Fahrenheit é aproximadamente 233 graus Celsius, muito mais que o necessário para queimar papel. Em todo caso, este livro mudou a opinião do diretor Truffaut sobre a ficção científica, que ficou muito feliz por conseguir dirigir o filme baseado no livro e começou a escrever o roteiro antes mesmo de ser totalmente fluente em inglês.

Bradbury desenvolveu as ideias do livro primeiro em um conto e uma novela, mas não os publicou. O romance foi composto em uma máquina de escrever emprestada, no porão de uma biblioteca. Muito se discute sobre as simbologias do filme. Há quem acredite que o uniforme vermelho dos bombeiros e o costume de todas as pessoas se chamarem de “primos” seja uma alusão ao comunismo, uma vez que vermelho é a cor do regime e um de seus pilares é a igualdade entre os indivíduos. Também pode-se pensar em regimes totalitários ou sociedades que mandaram queimar livros proibidos, denunciando a censura. Entretanto, o próprio autor fez questão de afirmar que enquanto escrevia pensava apenas em como a televisão poderia prejudicar o hábito da leitura. Imagine como ele se viu frente à revolução digital! (Ray presenciou-a, afinal, faleceu agora em 2012).

Na comunidade reclusa em que se lê, cada pessoa se encarrega de decorar uma obra completa, a fim de preservá-la no caso de queima total dos livros. Isso nos dá a ideia de que nos tornamos um pouco de tudo que nós lemos, mas é bom que, ao contrário do filme, ninguém abra mão de sua identidade para ser conhecido pelo livro que decorou.

Para manter a ideia de destruição da palavra escrita, nem os créditos são escritos, mas sim falados. Antenas de televisão são mostradas enquanto toca a música de Bernard Herrmann, compositor favorito de Hitchcock em sua primeira parceria com Truffaut. Esse único filme do diretor em inglês trouxe muita dor de cabeça, uma vez que ele se desentendeu com o ator Oskar Werner, com quem já havia trabalhado quatro anos antes. Truffaut fez algumas sábias escolhas modificando a história original, o que inclusive agradou a Bradbury. Com certeza ninguém estava preparado para levar para as telas os elementos tecnológicos futurísticos descritos por Ray! 

Não foram muitas as honras obtidas pelo filme na época de seu lançamento. Porém, com a passagem do tempo e a concretização da sociedade alienada criada por Ray, filme e livro se tornaram ainda mais interessantes. O livro virou história em quadrinhos, audiolivro e e-book. Muitos planos foram feitos para uma nova adaptação para o cinema em várias épocas, todos infrutíferos. Mais atual do que nunca, este filme, paradoxalmente, merece que deixemos os livros de lado por um momento e sentemos em frente à televisão para refletirmos.


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