4 de novembro de 2012

O Magnífico (1973) - Coluna Papel & Película



Não são muitos os filmes que lidam com as agruras de escrever um livro, embora a vida de um escritor esteja recheada de situações verdadeiramente cinematográficas: a busca por uma editora, a luta para se ver publicado e colocar seu livro no mercado, as viagens de negócio, as consequências do sucesso ou fracasso. Mas e quando o autor tem sucesso com uma série de livros ruins? Como é seu cotidiano e seu processo (nem tão) criativo? É isso que o filme francês “O Magnífico” aborda, com muito bom humor.

François Merlin (Jean-Paul Belmondo) já escreveu 42 livros de bolso com o personagem Bob St. Clair, uma espécie de James Bond muito atrapalhado. Na imaginação de Merlin, Bob é seu alter-ego mais sedutor, sendo inclusive interpretado pelo mesmo ator. Sua inspiração para tantas aventuras recheadas de romance, ação e violência vem de sua própria vida e ela nem é tão movimentada assim: o que Merlin faz é transformar as pessoas que ele conhece em personagens da trama, assim seu editor torna-se o vilão Karpof e sua bela vizinha Christine (Jacqueline Bisset) sofre uma metamorfose para virar a mocinha Tatiana. Mesmo sobrevivendo com o dinheiro da venda dos livros, e é mostrado que ele vende muito, Merlin não está muito satisfeito com o que faz, pois sempre disse que iria escrever uma obra-prima, o que nunca foi concretizado, como seu filho faz questão de lhe lembrar.

Uma boa reflexão é acerca da qualidade dos best-sellers. Quantos aficionados por literatura já leram um campeão de vendas e consideraram-no um lixo, muitas vezes com razão? Segundo Merlin, qualidade não garante vendas, porque o que os leitores realmente procuram, pelo menos em seus livros, é violência e erotismo. Cenas eróticas nunca são mostradas, mas o sangue escorre de maneira jocosa após todos os combates de Bob St. Clair.

Muitos leem para escapar de problemas, e essa é uma função válida da leitura e, alargando os horizontes, também do cinema de entretenimento puro. Hoje, principalmente, o cinema parece estar mais interessado em seus blockbusters de sucesso fácil com muito sangue, ação e fantasia, esquecendo-se dos filmes que acrescentam algo a nossas vidas. Podemos não ter aprendido com eficácia o que acontecia na Guerra do Vietnã vendo os filmes de Rambo, mas a saga do herói interpretado por Stallone foi um sucesso, e isso ocorria em paralelo ao lançamento de “O Magnífico”.

Da mesma maneira como nós imaginamos as cenas ocorrendo enquanto lemos os livros, associando as personagens com pessoas que conhecemos de acordo com as descrições feitas (pelo menos é isso que eu faço), um escritor também deve visualizar a ação enquanto concebe sua obra. Até quando Merlin fica bravo consigo mesmo é St. Clair que sofre, pois o autor faz uma espécie de catarse com sua criação.

O filme também faz troça com o cinema mexicano ao adotar os estereótipos tão comuns que os ianques utilizam ao retratar os mexicanos. Sim, porque a nova aventura de St. Clair se passa no México, com direito a esconderijo em pirâmide asteca e um bando de alegres cantores, munidos de seus bigodes e sombreros. 

Apesar de tratar do processo de escrita, não há roteirista citado nos créditos. O responsável pelo roteiro, Francis Veber, não ficou satisfeito quando o diretor Philippe de Broca chamou um colega para reescrever as cenas da personagem Christine e por isso exigiu que seu nome fosse retirado. Sem muitos prêmios, porém muito divertido, “O Magnífico” foi o sétimo filme de maior sucesso na França em 1973. Apesar de pouco conhecido, ele saiu no Brasil em DVD e merece ser visto, não apenas pelo riso fácil que provoca, mas também pelas reflexões que surgem quando acaba a projeção.

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