7 de novembro de 2012

Cinquenta Tons de Cinza e O Retorno dos Romances "Estilo Júlia"


Cinquenta Tons de Cinza hoje é fenômeno de vendas incontestável. No Brasil, o primeiro livro da série só saiu da primeira posição entre mais vendidos (desde sua estreia) quando foi superado pelo segundo volume da mesma saga. 

Mesmo aqueles que não estão envolvidos com o mundo da literatura de forma mais atenta, podem já ter escutado alguma menção ao livro na televisão aberta, por exemplo. Recentemente vi um comentário sobre valorização do patriotismo em um certo jornal de TV que criticava o fato de o brasileiro dar valor em demasia ao título de E. L James ao mesmo tempo que ignorava o grande Jorge Amado.

Críticas controversas à parte, a obra funciona e obviamente muito bem batendo recordes atrás de recordes em um sucesso inequívoco. Mas porque deu tão certo?

Especular é sempre complicado, mas a história que nasceu inspirada em Crepúsculo não é das mais difíceis de analisar. Basta ler o capítulo inicial (leia nossas primeiras impressões clicando aqui) para notar que o livro mantém aquela idealização exagerada do homem impressionante, típica de tantos títulos juvenis assim como o de Stephenie Meyer.

A protagonista (Anastasia Steele) é uma mulher "independente", mas simplesmente se desmancha diante dos encantos do empresário Christian Grey que reúne todas as qualidades que muitas meninas sonham (infelizmente em certa medida): é forte, misterioso, bonito, rico e tem poder sobre ela.

Até aí nada demais, então o que o livro traria de especial? A promessa de uma representação sexual com elementos mais "adultos" incluindo aí trechos do sadomasoquismo que tanto ajudou a vender a obra.

E fora isso o que tem de novo? Nada. Não li a obra por inteiro, mas tive acesso a diversos trechos que sempre confirmam o estilo empobrecido de narrativa, os personagens mal-trabalhados e superficiais, a trama corrida....

Nessa experiência de leitura, não demorei a lembrar das séries juvenis Júlia e Sabrina que basicamente reuniam nas décadas de 80-90 (creio eu) obras curtas, de autoras internacionais, voltadas ao público feminino adolescente. 

Para escrever este texto, dei uma lida em certos trechos de alguns volumes destas séries e qual não foi minha surpresa em notar muitas similaridades entre o fenômeno de E. L James e esses livrinhos antigos. 

Basicamente, a proposta é quase idêntica. Contar uma história bem simples cujo grande chamariz é o romance idealizado com um homem com várias características de Grey. O mais interessante é que eu julgava estas obras como bastante ingênuas, mas na realidade nem são tanto sim... Muitos livros fazem descrições de evidente conotação sexual.

Não demorou para que eu visse o que hoje me parece óbvio. Cinquenta Tons de Cinza é o típico romance amoroso bobo e pobre ao melhor estilo Júlia só que adaptado para um contexto pouco mais liberal. Assim, entra o sadomasoquismo para as meninas que acham as carícias usuais algo muito leve e portanto sem graça. 

A outra mudança da série de E. L. James que pude notar, esta para pior, é o estilo ainda menos elaborado de descrição no comparativo aos romances antigos; nestes parecia haver um cuidado maior ao se contar a história ainda que não existisse grandes méritos narrativos.

O mais curioso, porém, é ver tantas mudanças ocorrerem neste período de 20 ou 30 anos e perceber que certas coisas mantém-se inalteradas. Pena que neste caso a manutenção é de um estilo literário fraco que reproduz conceitos de uma sujeição feminina que deveria estar retrocedendo.






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