23 de outubro de 2012

Um Sussurro Nas Trevas (H. P. Lovecraft) - Crítica / Resenha

Editora Hedra

Sinopse

Um sussurro nas trevas (1930) narra os acontecimentos ocorridos após as grandes enchentes de Vermont em 1927. Ao ouvir histórias sobre cadáveres de animais desconhecidos boiando nas águas, o acadêmico Albert N. Wilmarth tenta vincular os relatos às crenças populares da região. O assunto ganha os jornais e a seguir entra em cena Henry Wentworth Akeley, o folclorista de Vermont que acredita na existência de cultos secretos e criaturas inumanas nas colinas do estado – e logo percebe estar diante de coisas muito mais poderosas do que seria capaz de imaginar. Um sussurro nas trevas é um dos grandes expoentes do “horror cósmico” de Lovecraft. O volume traz em apêndice dois textos inéditos em português: “Vermont – uma primeira impressão”, um poético relato da viagem que influenciou de maneira decisiva a escritura dessa novela e “O sussuro reconsiderado”, ensaio do escritor Fritz Leider, publicado originalmente na revista Haunted (1964).


Histórias de horror sempre me fascinaram. Cresci assistindo a filmes de terror de todos os tipos. Vampiros, lobisomens, fantasmas, zumbis, alienígenas malignos, fizeram parte do meu imaginário e das minhas fantasias. Escutava encantada e impressionada minha avó citar exemplos diversos de pessoas que afirmaram em algum momento da vida enxergar vultos, espíritos e manifestações inexplicáveis. 

É bem lógico que hoje em dia eu permaneça gostando de tais histórias. Se no caso dos filmes tenho facilidade em encontrar bons exemplos que abordam a citada temática, na literatura eu ainda não havia tido a mesma sorte, talvez não tivesse me dedicado o suficiente nessa busca, já que verdadeiramente minha arte preferida sempre foi o cinema. Mesmo assim posso afirmar que fiz algumas tentativas, comprei alguns livros, mas nunca nenhum havia feito qualquer efeito mínimo de tensão e isso seria o de menos para uma obra na linha de horror. 

Não lembro como, nem onde li pela primeira vez sobre H. P. Lovecraft, sei apenas que demorei demais para “conhecê-lo”. Pelos motivos expostos acima, eu já deveria ser uma expert em relação a sua obra. Ele é considerado o maior escritor de literatura de horror do século XX, criou uma mitologia própria conhecida hoje em dia como Cthulhu Mythos, povoada de seres assustadores. 

Este “Um sussurro nas trevas” é o primeiro livro ficcional de Lovecraft que tenho a oportunidade de ler, antes havia lido “O horror sobrenatural em literatura”, obra em que ele aborda o surgimento dos contos de horror e primórdios da novela gótica. Interessante registrar que Lovecraft preza pelo que ele chama de literatura do medo genuína “Uma suspensão ou derrota maligna e particular daquelas leis fixas da natureza que são nossa única salvaguarda contra os assaltos do caos e dos demônios dos espaços insondáveis”. (O Horror sobrenatural em literatura, pág. 17) 

Um sussurro nas trevas segue tais preceitos e não enrola; os acontecimentos extraordinários já nos são apresentados no início da narrativa. Sabemos por meio do personagem Albert Wilmarth, um professor de literatura e interessado em folclore, que após grandes enchentes ocorridas no dia 03 de novembro de 1927 em Vermont, surgem relatos de estranhos corpos boiando e bizarras aparições ocorridas no mesmo local também são relembradas. Debates são suscitados entre acadêmicos sobre o assunto, alguns defendendo a possibilidade de que haveria fatos verdadeiramente indecifráveis e ocultos em relação às ocorrências. 

Wilmarth, como um bom cético, rebate todas essas afirmativas e tais considerações são publicadas em vários jornais locais. É quando entramos em contato com o outro personagem central desta história. Henry Akeley é um homem versado em diversas ciências como: matemática, astronomia, biologia, arqueologia e também especialista em folclore e tem acesso a informações aparentemente muito mais precisas do que as de Wilmarth. Akeley tem fotos de estranhas pegadas, como também uma gravação assustadora de um algum tipo de ritual, no qual sons sinistros podem ser distinguidos.

A partir de um primeiro contato por meio de uma correspondência que Akeley encaminha a Wilmarth é estabelecida uma sequência de troca de cartas em que são relatados diversos acontecimentos que vão se tornando cada vez mais assustadores. A mudança de comportamento de Wilmarth é enorme, de cético comete alguns movimentos inconcebíveis até para quem acredita que verdadeiramente há algo de “outro mundo” envolvido na história.

Essa talvez seja uma das poucas críticas negativas que eu possa fazer ao texto de Lovecraft, porém, se levarmos em consideração o que é muito bem apontado num dos textos do apêndice deste mesmo livro, essa crítica se desfaz. 

Fritz Leiber em “O sussurro reconsiderado” sugere que Lovecraft escreveu suas histórias como se fossem pesadelos: “por uma mente incapaz de sair do pavoroso trilho por onde corria para olhar ao redor...”. “Especialmente em Um sussurro nas trevas, que Lovecraft escreveu em uma semana, o leitor precisa, para tornar a história convincente aceitar que Wilmarth encontra-se numa espécie de pesadelo hipnagógico a partir do momento em que recebe a última carta de Akeley.” (Pág. 144) 

Dito isto, enfatizo que apesar dessa aparente “falha” e de algumas outras que possam ser encontradas, o enredo elaborado por Lovecraft é suficientemente despertador de curiosidade e alguns momentos dignos de tensão, nos quais é difícil interromper a leitura por qualquer motivo. Perguntamos-nos se Akeley está sendo verdadeiro com Wilmarth, se não está escondendo algo, se não está completamente louco, como também podemos nos perguntar se é o caso de Wilmarth está ou ter ficado louco. 

O desfecho da história não deixou a desejar, ela termina da maneira que começa, ou seja, enigmática, Lovecraft não se utiliza de instrumentos plausíveis na realidade para dar explicações sobre os fenômenos ocorridos. Mania irritante contida em muitas obras ditas sobrenaturais. O objetivo básico dessa temática é mexer com o desconhecido e com nossos medos mais profundos, chocar, ir além do comum. Explicações que normalizam de alguma maneira tudo o que havia de assustador e singular, destroem o encanto e a magia da possível existência de um universo muito maior do que podemos imaginar.





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