16 de outubro de 2012

Sereias (Mirella Ferraz) - Crítica / Resenha

Editora Novo Século
Sinopse
“Então fiquem em silêncio e apurem seus ouvidos, pois podem ser agraciados com um canto vindo das ondas... por um canto de sereia...” Neste romance encantador, urdido a sal e água, é narrada a emocionante história de Coral, uma garota de aparência exótica, que nasceu envolta em mistérios sobrenaturais e com um estranho fascínio pela água. Poderá ela, com a ajuda do apaixonado Marcelo, desvendar todos os enigmas que cercam a sua vida? Conseguirá sua mãe, Marina, afastá-la de um destino que, para ela, parece apavorante, mas que constantemente se revela inexorável? Qual preço você estaria disposto a pagar para ajudar seu grande amor? Com uma narrativa dinâmica e empolgante, o leitor viajará pelo mundo de uma das mais fascinantes figuras lendárias, e presentes, de todos os tempos: a sereia. E verá que, muitas vezes, as lendas são mais reais  e estão bem mais próximas de nós  do que imaginamos. Venha desvendar o que se esconde nos mares...




Não vejo freqüentemente com bons olhos o mundo da fantasia por hoje. Para quem esquecer deseja qualquer realidade tal mundinho deve ser um acepipe daqueles! E maturidade para lidar com os problemas merecedores de resolução passa longe... Bem... À toa não é que toda fantasia traz consigo juventude: daquelas virginais principalmente... Conhecemos por adolescência. Mimos em demasia. Quase nenhuma visão crítica.

Deitei meus olhos assim, visão iconoclasta preparadíssima para pôr abaixo seres fantásticos, divinizados por quem nada quer com a vida pé no chão, no livro da sereia Ferraz Nogueira. Moça que já tinha visto mostrar em vídeos seu rabo... De peixe! Basta de mulher melancia: por enquanto pelo menos. Quando vi suas apresentações nadando fantasiada de sereia... Maluca! Contudo pacientemente todas as páginas de “Sereias” percorri.

Sem dúvida não é jaez espiritual meu ter ao mundo fantástico nenhuma sujeição. Inclusive mantenho fascínio pelas sereias. Entretanto tomo para mim a fantasia como possibilidade de perceber a realidade na sua completude. Dificilmente verei sereias mas elas estão presentes em nosso ser. A sedução... A beleza... Mar imenso tão misterioso quanto revelador. Viemos talvez das águas salgadas, maior parte da Terra, porém as suas funduras desconhecemos. Ulisses preso nos cordames amarrados ao mastro resistentes às sereias... Iemanjá: rainha do mar. Ou seja: todo mito diz mais sobre nós que mil páginas explicativas.

Mas desgosto de quem usa tais criações humanas para fuga do real. Descontente com o que passa na sua volta foge na busca de qualquer buraco por onde só vão toupeiras...

Dona Ferraz Nogueira vem a ser mais uma que foge da luz do dia? Não.

Além de gostar demais de sol, com praia, mar e tudo que seja conseqüência de tal paisagem... Escreve bem: muito bem! Já sabemos quem é Coral: Coral se descreve por meio de Marcelo. Marcelo que na verdade se chama Daniel. Romance que também é declaração. E gratidão pelo respeito que todas as pessoas íntimas de Coral Ferraz Nogueira devotam a sua realidade de sereia.

Nem adianta discordarem de mim: Coral se parece demais com sua criadora. Tem até parte do livro que dá confirmação do que digo...

Quem entendeu patavina dos últimos dois parágrafos esqueça: vamos prosseguir.

Coral nasce depois de muitas tentativas de gravidez intentadas pela sua mãe. Portanto vira xodó do casal que lhe deu vida. Mas o problema: não só tal dupla lhe deu vida. Temos mais um indivíduo genitor: marítimo. Coral manifesta características deste desde seus primeiros passos: gosta demais de se molhar por exemplo.

Quando digo demais eu digo demais a ponto de ser... Ora: demais!

E quando seu destino cada vez mais acentua ter um nome de mar mais confusão enreda nas voltas das ondas do romance. Toma fim espraiando num lugar maravilhoso chamado Fernando de Noronha. Sou de Pernambuco: conseqüentemente sei que não há por outro pedaço de chão e mar outro paraíso. Por aqui paro na descrição: espaço dou para quem quer tirar melhor proveito da leitura.

Também da releitura?

Sim. Ferraz Nogueira desenvolve com mestria muitas possibilidades da fantasia. Todas as sereias são vistas com bons olhos por exemplo nas interpretações convincentes só construídas por quem realmente conhece do que trata. Não são maioria descomposta que se vê com recorrência por vezes até selvagem. Crepúsculo quem nem anos-luz chega perto do Drácula de Bram Stoker vem a ser exemplar.

Óbvio que muitas milhas marítimas faltam ainda para tal sereia conseguir a palma da grandeza literária. Contudo talvez não seja tão difícil quanto pensamos! É ler bastante mais escrever com desenvoltura. De princípio fez bem: tratou do tema de maneira simples e também hábil. Primeiro passo dado torço pela felicidade dos demais. Sucesso! Na minha torcida chegará no nível da Mãe d’ Água de Manuel Bandeira. Graças aos céus... Melhor: ao mar! Graças ao mar temos sereias que não querem calar a voz: esta voz ressoa literariamente também! Não chegamos ao ponto de suportar o silêncio das sereias, Kafka: não chegamos ainda!

Dificilmente verei sereias? Li Ferraz Nogueira: crer é conseqüência. Perdão pela descrença! Só me resta pedir sua proteção e mais nada. 

Já não ia me lembrar... Observação importante: sereias de seios nus é melhor.


(3 de 5 / Bom)


e-mail: sergio@leialiteratura.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente e Dê sua Opinião Sobre O Tema.

Lembrando que qualquer opinião com boa educação é muito bem-vinda, mas ofensas são excluídas.

(obrigado pela visita, volte quando puder)