20 de outubro de 2012

O Leitor (2008) - Coluna Papel & Película


Vez ou outra fico entediada ao ver tantos filmes e livros tendo a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo. Sem dúvida foi um conflito importante na história da humanidade, mas seu poder dramatizador às vezes é levado longe demais. Distante desses casos está “O Leitor”, filme de 2008 que não se passa exatamente durante a guerra, mas usa situações ocorridas nos campos de concentração para dar fio à narrativa. Como não podia deixar de ser, trata-se de um filme baseado em um livro que tem também um extra: literatura é outro fio condutor.

Um jovem de 15 anos, Michael Berg (David Kross), se apaixona por uma mulher de 38 anos, Hanna Schmitz (Kate Winslet), que o ajuda quando ele passa mal na rua. Depois de segui-la e visitá-la várias vezes, tem início um relacionamento muito ousado. Todos os dias após as aulas ele a encontra e ela pede que ele leia para ela, entre outras coisas.

Como em todos os casos de amor impossível contados pelo cinema, chega uma hora em que o casal deve se separar. Isso acontece por vontade de Hanna, que vai embora. Mas como também acontece nos filmes, eles se reencontram em uma situação-limite. Agora ele é estudante universitário e uma de suas atividades do curso de Direito é assistir a um julgamento. O julgamento de Hanna. Sem poder dizer mais nada para não estragar o filme, só me resta apontar que o papel que a leitura teve na relação deles é muito importante para o julgamento e o que se segue.

Toda a história é relembrada por Michael (interpretado por Ralph Fiennes) na véspera da visita de sua filha em 1995. Por Michael ser o narrador, ele nos apresenta Hanna com carinho. Por outro lado, não sabemos se Hanna gostava mesmo dele. De fato, a interpretação de Winslet, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz, é cheia de nuances, mas com pouco afeto.
O livro que deu origem ao filme foi publicado na Alemanha em 1995 e dois anos depois nos Estados Unidos, tornando-se um best-seller e sendo traduzido para 37 línguas. Há uma grande especulação de que o autor Bernhard Schlink se retratou como Michael, uma vez que ambos têm a mesma carreira (são advogados) e a profissão não é exatamente a parte mais importante do enredo. Como todo bom livro, a parte sexual é apenas sugerida, enquanto nas telas ela é mais escancarada. O ator alemão David Kross, que interpreta o jovem Michael, teve de esperar fazer dezoito anos para gravar as cenas mais fortes sem correr o risco de colocar a produção em perigo.

A grande discussão na época do lançamento foi que o filme não conseguiu passar a mesma carga emocional do livro nem mostrar as metáforas que o autor construiu. Muitas situações importantes, responsáveis por desvendar os sentimentos de Hanna, são deixadas de lado, enquanto momentos supérfluos entram no filme.

Vários são os livros lidos por Michael em voz alta para Hanna e sem dúvida aquele que mais marca o espectador, pela quantidade de vezes que aparece e por sua importância é “A Dama do Cachorrinho”, conto publicado em 1899 e que surpreendentemente trata de um adultério. Além desse, Michael também lê “A Odisseia” de Homero, “As Aventuras de Huckleberry Finn” de Mark Twain e até mesmo uma história em quadrinhos de Tintin. A meu ver, nenhuma dessas obras têm um simbolismo específico dentro do filme, mas isso já daria início a outra discussão...

Em todas as premiações o destaque foi Kate Winslet, que curiosamente ganhou o Globo de Ouro, o prêmio do Sindicato dos Atores e o prêmio dos Críticos como Atriz Coadjuvante. Além de Kate e, claro, Ralph Fiennes, vale destacar a presença de Bruno Ganz, famoso ator suíço que fez carreira na Alemanha e por coincidência interpretou Hitler em “A Queda” (2004). Os dois produtores do filme, Sidney Pollack e Anthony Minghella, faleceram antes da conclusão das filmagens.

Ė complicado falar sobre o filme sem correr o risco de estragar seus melhores momentos. O certo é que, apesar de ter sido escrito por um alemão e feito por americanos, ele tem muito a ver com o Brasil, numa época em que estamos discutindo, ainda que por baixo dos panos, que tipo de justiça deve ser feita para os envolvidos nas torturas durante a ditadura. E mais do que isso, como os livros podem mudar a vida de uma pessoa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente e Dê sua Opinião Sobre O Tema.

Lembrando que qualquer opinião com boa educação é muito bem-vinda, mas ofensas são excluídas.

(obrigado pela visita, volte quando puder)