17 de outubro de 2012

Entrevista - Camila Fernandes


Escritora elogiada e ilustradora de sucesso, Camila Fernandes (a Mila) publicou ano passado Reino das Névoas, seu primeiro livro solo, que resgata tonalidades mais adultas e sérias dos contos de fada; mostrando que eles não são sinônimos de histórias para crianças.

Após suas férias, a autora nos concedeu gentilmente a entrevista que você confere abaixo, onde falou sobre sua obra passando pelo trabalho como ilustradora e pela forma como vê a literatura na atualidade.


Leia Literatura: Muito obrigado por ter aceito nosso convite Camila. Sempre é interessante começar perguntando: como você se descobriu escritora?

Camila Fernandes: Eu é que agradeço pelo convite, Ewerton! Isso começou na minha infância. Foi um processo natural. Não sentei um dia e disse: serei escritora. Simplesmente lia muito desde os 8, 9 anos de idade e em algum momento veio a vontade de contar minhas próprias histórias. Às vezes eu tentava desenhá-las, sem saber muito aonde estava indo. Percebi que fluía melhor quando eu escrevia, então, passei a escrever. Escrevi durante toda a minha adolescência. Até hoje tenho alguns projetos da época por finalizar - os famosos "romances de gaveta" de todo escritor! No começo da minha vida adulta, percebi que poderia ser várias coisas na vida. E que uma delas, com toda certeza, teria que ser escritora.


O seu processo criativo está mais para aqueles que fluem sem maiores problemas ou bloqueios e mudanças de rumo são constantes?

Acontece das duas formas. Às vezes eu me sento e escrevo uma história inteira de uma vez. Em outros momentos, especialmente quando a trama é mais longa, é necessário pensar, repensar, mudar os rumos e até cortar capítulos inteiros que, no decorrer do processo, tornam-se supérfluos. Fico às vezes vários meses sem escrever, mas depois que começo não consigo parar por um bom tempo. É um processo pouco produtivo e pouco comprometido. Mas, como não tenho contratos e prazos a cumprir no momento, tem funcionado.


O seu livro, Reino das Névoas, narra contos para crianças com uma uma temática menos infantil. A ideia de recontar as histórias desta forma surgiu com a intenção de resgatar o tom mais sério e violento que tais narrativas tinham quando foram criadas?

capa: Reino das Névoas
É comum confundir contos de fadas com contos infantis, mas eles não são a mesma coisa. Os contos de fadas vêm de uma época em que não havia distinção entre o que era "para criança" e o que era "para gente grande". Autores como Perrault e os Irmãos Grim é que iniciaram essa distinção ao coletar contos populares e fantásticos e direcioná-los para um público que já começava a selecionar com mais cuidado o que seus filhos liam e ouviam. Antes disso, as histórias eram, por assim dizer, mais sujas. Tinham o tom mais violento que você mencionou. Mas mesmo essa violência não era gratuita: tinha uma função simbólica, iniciática. Este era o meu projeto: usar a fantasia para falar da realidade, que é o que os contos clássicos faziam.


No livro, você basicamente fala de temas fantásticos ao refazer contos clássicos. A sua maior preocupação foi fazer da leitura basicamente entretenimento ou além disso há uma pretensão metafórica nas histórias como nos contos originais?

As duas coisas! Eu queria escrever um livro que eu própria gostasse de ler. Para isso, ele precisaria oferecer tanto um bom entretenimento quanto a possibilidade de subleituras. Todos os contos do livro têm um viés metafórico, mas cada leitor o captará de uma forma diferente. Alguns podem não captá-lo e mesmo assim curtir a leitura. O que se percebe ao fundo é que não importa se o personagem é uma rainha, um príncipe ou um animal falante - a história ainda é sobre nós, sobre gente de verdade.


Reino das Névoas já foi lançado há mais de um ano. Como tem sido o retorno dos leitores?

A resposta dos leitores é sempre maior na época do lançamento. Mas mesmo assim ainda tem sido intensa. Em eventos de literatura ela aumenta. Em setembro, tivemos em São Paulo o Fantasticon 2012. Eu participei do bate-papo "Mulheres e Fantasia: uma combinação explosiva", proposto pelo organizador do evento, o Silvio Alexandre, e meu livro estava à venda. Depois do Fantasticon, recebi diversos e-mails de pessoas que o compraram e gostaram da leitura. A recepção em geral é muito boa, demonstrando que o gosto das pessoas por contos de fadas permanece! Mas já faz um ano que "Reino" saiu e passou da hora de lançar mais um livro. Os leitores têm cobrado...


Além de escritora você é uma ótima desenhista (conferimos seu portfólio online antigo); que tipo de influência essa outra vertente causa na sua literatura? Você gosta de descrever detalhes físicos minuciosamente por exemplo (rs)?

Obrigada! Sim, gosto muito de fazer descrições, mas tomo cuidado para não passar do ponto (rs!). É preciso deixar uma parte desse trabalho para a imaginação do leitor. Também há situações em que a aparência do personagem não é importante. A principal influência da ilustração sobre a minha escrita é que tendo a imaginar algumas cenas de forma muito visual e gosto de desenhar meus personagens. Quero aliar as duas coisas, por isso é bem provável que meus próximos livros também sejam ilustrados.


Como escritora e desenhista, é natural pensar que as HQs poderiam ser um caminho interessante. Assim, gostaríamos de saber como você vê o gênero e se existe alguma ideia de fazer quadrinhos.

Sempre adorei ler HQs. Comecei cedo, com Conan, Batman, Liga da Justiça e Tio Patinhas (rs). Artistas como Brian Bolland e P. Craig Russell influenciaram muito meu traço. Não tenho acompanhado nenhuma série em HQ no momento, leio o que cai em minhas mãos. Continuo gostando de quadrinhos, mas não pretendo fazer nada do tipo. É um estilo de narrativa que não domino e, no momento, não me empenho em desenvolvê-lo.


É realmente difícil ser um escritor novo no Brasil?

É difícil, mas difícil não é impossível. Se você realmente se esforçar para criar material de qualidade e souber vendê-lo, pode encontrar seu lugar ao sol. Atualmente, há uma abertura muito maior para os jovens escritores brasileiros de literatura fantástica, não sei se porque a receptividade do público ao gênero aumentou, se porque há mais editoras investindo nele ou as duas coisas (rs). O fato é que temos visto muita gente publicando e isso é bom para todos - autores, editoras e leitores. Por enquanto, pouquíssima gente vive dessa literatura, mas, se o objetivo da pessoa for esse, então ela deve fazer de seu crescimento como escritora uma prioridade, mesmo que tenha que trabalhar 8 horas por dia em outra área para se sustentar. Ela terá que investir a maior parte de seu tempo livre nesse esforço para se aprimorar e chegar às editoras. Não poderá ser relaxada como eu, que só escrevo quando quero (rs!).


Como você enxerga a literatura atual?

É extremamente diversificada. Hoje, chegam ao Brasil livros de todos os tipos e para todos os gostos. Temos livros leves, como comédias românticas. Temos dramas familiares para emocionar e enternecer o leitor. Temos livros técnicos para informar. Temos a literatura fantástica para quem gosta de imaginar o que não foi nem será, mas poderia ter sido. Temos livros densos, extremamente difíceis de classificar e também de ler, que o grande público normalmente rejeita. Temos de tudo para todos. E isso é ótimo, pois o ato de ler não deveria ser reservado a um só grupo, a um só tipo de pessoa. Só não temos ainda muitos livros baratos. Temos em São Paulo as máquinas de livros do metrô, com obras baratíssimas, sim. Mas ainda o livro no Brasil ainda é um produto caro. Não temos a cultura do paperback, o livro pequeno em papel barato, que não representa um objeto de desejo e sim a chance de ler uma boa história, simplesmente. Mas tenho visto muitas crianças e adolescentes lendo compulsivamente e gosto de acreditar que as próximas gerações de adultos lerão mais, ainda que exijam obras mais ágeis.


Nossa pergunta temática: por que ler literatura?

Porque ler é visitar outros mundos, viver outras épocas, enxergar por outros olhos, amar e odiar outras gentes. Ler é viajar sem sair do lugar, é exercitar sua capacidade de ver o outro, de ser o outro. É uma experiência completa!


Mais uma vez agradecemos por ter aceitado nosso convite. Para finalizar, fale um pouco sobre seus novos projetos.

Muito obrigada a você, Ewerton, e ao blog Leia Literatura por essa oportunidade de expor minhas ideias. Este ano eu trabalhei demais (rs), o que significa que não escrevi nada. Mas os próximos projetos já estão em andamento. Devo abrir em breve a chamada para uma coletânea de contos de fadas com outros autores e este mês começo a escrever a continuação de "Reino das Névoas", que virá na forma de um romance e poderá ser lida independentemente do livro anterior. Os dois devem sair em 2013. Depois disso, preciso tirar algo daquela gaveta. Tem muita coisa promissora lá só juntando poeira!

Gostou da conversa? Então conheça mais sobre a autora e sua obra nos links abaixo:

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