12 de setembro de 2012

A Invenção do Nordeste e Outras Artes (Durval Muniz de Albuquerque Júnior) - Crítica / Resenha

Editora Cortez (4ª edição)

Inicialmente elaborada como tese do doutorado em História pela UNICAMP do Historiador e Professor Durval Muniz de Albuquerque Júnior este é um livro que desperta curiosidade já pelo título. Imagino que não seja frequente para a maioria pensar que algo tão cotidianamente aceito possa ter sido inventado. Pelo menos essa foi a minha primeira reação, apesar de por vezes discordar avidamente em conversas com outras pessoas sobre essa suposta semelhança entre todos os estados nordestinos e sua gente. 

Durval Muniz se apresenta como filho de pai nordestino e mãe paulista, daí haver em sua própria história de vida a convivência entre esse dois “mundos”. 

Sou pernambucana, e como boa parte do povo pernambucano, sinto ter uma identidade bem definida e deveras diversa da identidade baiana, maranhense, cearense e por aí vai, porém, nascida inclusa na perspectiva nordestina de ser, esta tornar-se mais presente do que talvez verdadeiramente seja. 

A obra de Durval Muniz veio esclarecer posicionamentos históricos, aos quais nunca poderia chegar com tamanha profundidade. Entretanto, acredito que para algumas pessoas as avaliações e ideias contidas neste livro possam ser um tanto revolucionárias e desconcertantes demais, principalmente em se tratando daquelas que enaltecem um “orgulho de ser nordestino”, sem imaginar que por trás de tal identidade reverenciada há uma criação de ideário essencialmente político que não foi constituída pelo povo dos Estados desta parte do País. 

Durval Muniz nos conduz ao início do século passado quando os termos Nordeste e nordestin@ simplesmente não existiam, ele explica e demonstra como tal visão surgiu atrelada à necessidade da construção da nação, buscando-se identificar as particularidades e similaridades do povo brasileiro, foram aparecendo vários discursos dando significado às supostas diferenças entre regiões e em contraposição ao Sul e Sudeste desenvolvidos foi criando-se esta imagem de Nordeste que conhecemos hoje, atrasada e dependente. 

Já existia verdadeiramente uma discrepância econômica entre os diversos Estados do Brasil, no entanto, tal discrepância originou-se a partir da mudança do produto gerador de demanda aos mercados externos. Se antes o açúcar era o principal produto a ser exportado, o café tomou seu lugar e ao mesmo tempo fez com que as regiões que o detinham crescessem e se desenvolvessem em outra velocidade. 

Durval Muniz denuncia o que chama de estratégia de estereotipização: “O discurso da estereotipia é um discurso assertivo, repetitivo, é uma fala arrogante, uma linguagem que leva à estabilidade acrítica, é fruto de uma voz segura e autossuficiente que se arroga o direito de dizer o que é o outro em poucas palavras. O estereótipo nasce de uma caracterização grosseira e indiscriminada do grupo estranho, em que as multiplicidades e as diferenças individuais são apagadas, em nome de semelhanças superficiais do grupo” (Pág.30, 2º parágrafo). 

E mais: “O que este livro interroga não é apenas por que o Nordeste e o nordestino são discriminados, marginalizados e estereotipados pela produção cultural do país e pelos habitantes de outras áreas, mas ele investiga por que há quase noventa anos dizemos que somos discriminados com tanta seriedade e indignação. Por que dizemos com exaltação e rancor que somos esquecidos, que somos menosprezados e vítimas da história do país?...” (Págs.30 e 31, 3º parágrafo) 

Durval Muniz demonstra como nossos próprios intelectuais colaboraram, alguns conscientemente outros não, para a fixação e perpetuação de tais estereótipos. No campo da Sociologia o destaque maior sendo Gilberto Freyre. Na Literatura, há citações para diversos escritores: José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, Jorge Amado, Ariano Suassuna e o poeta João Cabral de Melo Neto. Na pintura: Cícero Dias e Lula Cardoso Aires, na Música: Luiz Gonzaga, no Cinema: Glauber Rocha, entre outros ilustres. 

Ele ainda destaca que as elites da zona açucareira percebendo que perdiam espaço e importância nacionalmente iniciaram um processo em várias frentes em busca de recursos financeiros e notaram sabiamente que o discurso da seca surtia efeito nesse sentido. 

Ou seja, houve uma convergência de diversos fatores para se chegar à imagem existente hoje. Não é à toa, que Nordeste muitas vezes é sinônimo de atraso, de seca, de pessoas pobres, analfabetas e famintas, mas também sinônimo de praias, de alegria, carnaval que nunca termina e de pessoas com um certo tipo de sotaque “cantado”, ainda há as velhas e batidas referências a Lampião e ao Cangaço. Cultura e fenômenos típicos de um Estado específico são misturados e “vendidos” ao “público” em geral como sendo pertencentes a toda esta parte do país, nada mais enganoso. 

Este livro nos ensina a olhar nosso país de outra maneira, não apenas o “Nordeste”, pois nos revela que toda a forma de enxergar as famigeradas diferenças regionais foi construída. Não que elas não existam, porém, não existem do modo como percebemos ou como querem nos fazer perceber, sempre é tempo de exercitarmos nosso pensamento em outras direções, livros que nos ajudam nesse sentido são verdadeiramente enriquecedores.


5 de 5 (Obra-prima)





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