12 de agosto de 2012

O Sol é Para Todos (1962) - Coluna Papel & Película


Aos olhos das crianças, tudo pode ganhar uma nova perspectiva. Coisas complicadas tornam-se simples, grandes problemas são vistos por outros ângulos, somos surpreendidos e por vezes emudecidos pelo que as crianças falam. Imagine então uma criança narrando algo tão sórdido quanto um caso de preconceito que mexe com a cidade inteira. Pois é isso que acontece em “O Sol é para Todos”, livro escrito por Harper Lee e ganhador do Prêmio Pulitzer que logo se transformou em um dos filmes mais tocantes da história.

Já adulta, Jean Louise “Scout” Finch (interpretada quando criança por Mary Badham) conta os eventos que aconteceram antes e depois de um julgamento e que foram importantes para o caso. No tribunal, o negro Tom Robinson (Brock Peters) é acusado de estuprar uma moça branca, Mayella Ewell, e cabe a Atticus Finch (Gregory Peck), o pai de Scout, defender o homem. A esse acontecimento sério se intercalam brincadeiras infantis com o irmão Jeremy “Jem” Finch (Philip Alford) e o amigo Dill, além da criação de hipóteses sobre o vizinho recluso, Boo Radley. 

A história se passa nos anos 1930 e em uma cidadezinha de costumes conservadores. No livro isso fica mais claro que no filme, visto que até aparece escrita uma pequena reflexão sobre os atos de Adolf Hitler. O preconceito ainda forte nessa época é abordado de forma pontual, pois são as crianças que sofrem por seu pai defender um negro no tribunal. Aliás, a sequência do julgamento é muito bonita e pungente. Aliás, o tribunal da cidade natal da autora Harper Lee serviu de inspiração para a contrução do set. Vale mencionar que o livro é um pouco autobiográfico, pois vários dos personagens são inspirados em pessoas que a autora conheceu na infância.

Para a versão cinematográfica foram cortadas várias cenas narradas no livro e também algumas personagens interessantes, como a tia Alexandra, alguns vizinhos, colegas de escola e professoras. Mas não pensem que havia escritos supérfluos: cada situação contada vem para acrescentar à história e às nossas reflexões cotidianas.

Atticus Finch é o símbolo máximo de integridade cinematográfica. Além de competente advogado, ele ainda é um viúvo que cria seus dois filhos com todo amor e carinho, embora, como pedia a época, seja bastante exigente. Eleito o maior herói do cinema, esbanja decência e caráter.

Livro e filme são tão importantes que, neste ano de 2012, quando se completaram 50 anos do lançamento do filme, o presidente americano Barack Obama fez a introdução de uma exibição especial da película na TV. E reza a lenda que, após assistir ao filme, Walt Disney teria afirmado que era aquele tipo de filme que ele queria fazer, levando uma mensagem às pessoas.

A história também virou uma peça, apresentada anualmente na cidade natal da autora. Ela diz que ficou muito satisfeita com o resultado da adaptação cinematográfica e muitas vezes se emocionou com a interpretação de Gregory Peck, que lembrava muito o pai dela. No fim das filmagens, Lee deu ao ator o relógio que pertencera ao seu pai e os dois permaneceram amigos, tanto é que a neta de Pck foi batizada de Harper em homenagem à autora.

O filme foi indicado a oito Oscars, quebrando o recorde de mais nova indicada (Mary Badham como Atriz Coadjuvante) e levou três estatuetas: Melhor Ator para Gregory Peck, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Direção de Arte. Também ganhou três Globos de Ouro: novamente Melhor Ator, Trilha Sonora e um prêmio especial por promover a igualdade racial.

Lidando com a perda da inocência e a compreensão do mundo através dos olhos de uma criança e evoluindo para o debate da desigualdade e justiça, voltando depois o foco para um clímax surpreendente, “O Sol é para Todos” foi a única novela publicada por Harper Lee e se transformou num clássico da literatura americana e do cinema. Sua simplicidade inteligente deixa-nos com um sorriso no rosto a cada capítulo lido, tornando-o uma obra indispensável para qualquer amante dos livros e dos filmes, e qualquer ser humano de valores.


e-mail: leticia(a)leialiteratura.com

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