3 de junho de 2012

Drummond, O Cinéfilo - Coluna Papel & Película


Os escritores, essa espécie singular que está sempre de olhos abertos e ouvidos atentos observando tudo, desde que surgiu a Literatura, tiram do cotidiano assuntos para seus escritos. Muitas vezes eles são influenciados por outras artes para fazer a sua. Não é de se espantar que vários escritores do século XX não tenham se voltado somente para os grandes mestres do passado, mas também buscado inspiração na arte que dominou esse século: o cinema.

Carlos Drummond de Andrade, mineiro de Itabira, nascido em 1902 e falecido em 1985, viveu com intensidade a época de ouro do cinema, tratando de filmes, atores e atrizes em seus poemas. Assim como tantos outros espectadores fizeram ao longo do tempo, Carlos se apaixonou por muitas mocinhas das telas, citando suas namoradas que nem sabiam de sua existência em “Retrorelâmpago do Amor Visual”.

Drummond foi também um observador do que acontecia no mundo e para isso o cinema teve papel importante. Até a metade do século XX, antes de começar a sessão eram exibidos pequenos cine-jornais, ou seja, um breve resumo de notícias feito por estúdios de cinema. Através deles Drummond e o público em geral ficavam sabendo dos acontecimentos do mundo todo e possibilitaram que esse funcionário público de vida simples, que viajou pouquíssimas vezes ao exterior, soubesse o que acontecia na União Soviética a ponto de enviar uma “Carta a Stalingrado”.

A relação de Drummond era de tanto amor pela sétima arte que quando o Cinema Odeon de Belo Horizonte foi fechado ele se revoltou, como qualquer cinéfilo. Mas, como excelente poeta que era, fez um poema deixando clara sua tristeza e indignação: O Fim das Coisas. A capital mineira, aliás, foi um dos centros de formação intelectual de Drummond e pode-se perceber que essa formação não se deu apenas da maneira acadêmica, mas também de uma forma pouco ortodoxa, mas não menos válida. Em sua passagem por BH ele também frequentou o Cinema Pathé, onde assistiu à superprodução “Intolerância”, de 1916 e, embasbacado pela película, escreveu “O grande filme”. 

Assim como muitos de seus contemporâneos e até mesmo como vários cinéfilos atuais, Charles Chaplin era um dos favoritos de Drummond. Ele dedicou dois poemas ao adorável vagabundo, sempre como se estivesse realmente dialogando com ele através de cartas em “A Carlito” e “Canto ao homem do povo Charles Chaplin”. Outro ícone dos anos 1920 foi a bela atriz sueca Greta Garbo, que fez carreira até 1939, totalizando 27 filmes. Drummond assistiu-os todos e comenta-os em “Os 27 filmes de Greta Garbo”.

Não posso não citar o que percorreu o caminho inverso e dos escritos de Drummond foi parar nas telas do cinema: seu poema “O Padre e a Moça” virou filme em 1965, estrelando Helena Ignez, Paulo José e Mário Lago. Além disso, o diretor Paulo César Saraceni decidiu seguir na carreira cinematográfica após ler um conto de Drummond intitulado “O gerente”. Curiosamente, a adaptação do conto para as telas acabou sendo o último trabalho de Saraceni.

Mais uma personalidade do cinema clássico, Joan Crawford, ganhou seu próprio poema, reproduzido abaixo. Como bom cinéfilo e melhor poeta, Drummond também tratou de forma implícita o mundo do cinema em seus escritos, numa obra tão vasta quanto o universo cinematográfico. 

Joan Crawford: in memoriam

No firmamento apagado
não lucilam mais estrelas de cinema.
Greta Garbo
passeia incógnita a solidão de sua solitude.
Marlene Dietrich
quebrou a perna mítica de Valquíria.
Joan Crawford
produtora de refrigerantes, o coração a matou.
O cinema é uma fábula de antigamente
(ontem passou a ser antigamente)
contada por arqueólogos de sonho, em estilo didático,
a jovens ouvintes que pensam em outra coisa.
O nome perdura. Também é outra coisa.
Tudo é outra coisa, depois que envelhecemos.
E não há mais deusas e deuses. Há figurinhas
móveis, falantes, coloridas, projetadas
do interior da casa. Não saem nunca mais,
enquanto se esvazia o céu da Grécia
dentro de nós – azul já negro ou neutra-cor.
Joan, não beberei por ti, à guisa de luto,
nenhum líquido fácil e moderno.
Sorvo tua lembrança
a lentos goles.

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