20 de maio de 2012

E O Vento Levou... (1939) - Coluna Papel & Película


O filme mais longo a ganhar o Oscar, um sucesso absoluto de bilheteria, um épico inesquecível, a película vista por mais pessoas em toda a história. São muitas as maneiras de se referir a “E o vento levou...”, clássico absoluto que peca em alguns detalhes, mas mesmo assim conquistou uma legião de fãs e conseguiu alcance muito maior que o sucesso obtido pelo livro escrito por Margaret Mitchell, best-seller instantâneo nos anos 1930.

A voluntariosa Scarlett O’Hara (Vivien Leigh) tem como grande objetivo de vida se casar com Ashley Wilkes (Leslie Howard), mas quem acaba casada com o moço é a bondosa prima de Scarlett, Melanie (Olivia de Havilland). Assim, Scarlett começa uma verdadeira odisseia em meio à Guerra de Secessão (1861-1865), envolvendo-se com homens que não ama e, principalmente, tendo sua vida virada de cabeça para baixo durante o conflito.

A obra escrita começou de um jeito muito interessante: Margaret Mitchell havia machucado seu calcanhar e por isso não poderia sair de casa por um bom tempo. Ela então leu avidamente tudo o que caiu em suas mãos e, após acabar com todos os volumes de várias prateleiras da biblioteca local, seu marido comprou-lhe uma máquina de escrever e disse para ela usar o artefato para se distrair. Assim surgiu “E o vento levou...”, criado com uma boa dose de pesquisa histórica e também através de memórias das conversas dos familiares mais velhos sobre esse conturbado período.

Antes do acidente que a impediu de andar por um tempo, Margaret era uma moça ativa, participava de todas as festas, até mesmo daquelas regadas a bebidas durante a vigência da Lei Seca, e trabalhava como repórter. Depois do sucesso de seu livro, no entanto, ela se tornou uma mulher muito reservada. O sucesso a pegou de surpresa, com um milhão de cópias vendidas em seis meses e o prêmio Pulitzer, o mais importante da literatura norte-americana, em 1937.

A odisseia literária de Scarlett não foi nada comparada à produção do filme. Logo que foi anunciado o projeto, milhares de mulheres, entre aspirantes a estrela e atrizes já consagradas, se inscreveram nos testes para Scarlett O’Hara. Foi Vivien Leigh, inglesa (embora nascida na Índia) e novata em Hollywood que ficou com o papel, marcando o início de uma brilhante carreira e garantindo o primeiro de seus dois Oscars. Para Rhett Butler, no entanto, só foram cogitados quatro atores, e Clark Gable só aceitou o papel porque estava passando por um divórcio e precisava de dinheiro. Ao longo das filmagens, a produção teve quatro diretores e muita dor de cabeça. Para se ter uma ideia, só a primeira cena filmada, a do incêndio em Atlanta, já causoufrenesi quando os vizinhos do set de filmagem se desesperaram achando que o estúdio estava ardendo em chamas.

O livro, com mais de mil páginas, demorou três anos para ser escrito e, obviamente, houve algumas adaptações para a tela. A principal é a quantidade de filhos de Scarlett (três no livro, um no filme), além da omissão de personagens secundários. Curiosamente, algumas das cenas mais marcantes foram criadas especialmente para o filme, como aquela em que Scarlett anda pelas ruas de Atlanta em busca de um médico e se depara com uma multidão de feridos formada, na realidade, por uma mistura de atores e bonecos de cera. Além disso, a mais famosa frase do filme e uma das mais conhecidas sentenças da história do cinema, “Frankly, my dear, I don’t give a damn” (Francamente, minha querida, eu não dou a mínima) não existia no livro. 

Assim como outro clássico que retrata a Guerra de Secessão, “O Nascimento de uma Nação” (1915), “E o vento levou...” teve sua parcela de controvérsia. Muitos reclamam da maneira como os negros são retratados, pois Prissy (Butterfly McQueen), por exemplo, é uma escrava de voz e comportamento irritantes e não muito inteligente. Mamie, por outro lado, desde o começo é retratada como uma segunda mãe para Scarlett, responsável por cortar as asinhas da mocinha de vez em quando. Sua intérprete, Hattie McDaniel, foi a primeira negra a ganhar um Oscar, porém não pôde receber seu prêmio de Atriz Coadjuvante porque ainda havia leis racistas que impediam a participação de negros em algumas cerimônias.

Amado por muitos, odiado por tantos outros (em especial estudantes que foram obigados a assisti-lo), “E o vento levou...” peca um pouco por sua longa duração, mas isso é essencial para mostrar os caprichos de Scarlett. De fato, ela é uma das primeiras anti-heroínas do cinema, mas sua saga poderia se passar durante qualquer conflito ou desastre na história mundial. O ponto central é que, apesar de sua vida passar por tantas mudanças, Scarlett não aprende. Enfim, traçar um perfil desse filme e ainda tentar entender sua protagonista daria um livro ainda maior que “E o vento levou...” de Margaret Mitchell que, por sinal, está de volta às livrarias brasileiras.

Um comentário:

  1. Apesar de ser um clássico e todo mundo falar bem, nunca assistir o filme ou li o livro, mas seu post me deixou muito curioso. E agora que o Grupo Editorial Record lançou uma nova edição (a capa é linda!) vou ver se da pra comprar pra ler :)

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