10 de janeiro de 2012

O Crime do Padre Amaro (Eça de Queirós) - Crítica / Resenha


Editora L&PM (Pocket) - 2006 (reimpressão de 2011)
Sinopse
No romance, o recém-ordenado padre Amaro vai trabalhar na cidade portuguesa de Leirira (onde o próprio Eça de Queiroz viveu no período que escreveu a obra). Lá, colocando em prática o que aprendera no seminário, depara-se com as contradições e as impossibilidades do catolicismo tal como pregado e praticado. E acaba envolvendo-se de maneira perigosa com a jovem Amélia, num drama levado à mais alta realização pela verve narrativa e estilística do autor.
O livro inaugura o chamado realismo na literatura portuguesa, e descrições tão cruas de hipocrisias envolvendo o clero, a própria religião católica e a sociedade burguesa chocaram o moralismo da época. Hoje, mais de cem anos após sua publicação, O crime do padre Amaro matém seu lugar de marco na literatura portuguesa e mundial, e, por outro lado, entre os ataques mais ferinos jamais feitos pela literatura aos dogmas da Igreja Católica.


Quando eu sabia um pouco menos de literatura do que sei hoje, acreditava que Eça de Queirós era um escritor de livros românticos bobos, como novelas cheias de clichês dramáticos sem grande qualidade estilística e com poucas ou nenhuma inovação.

Ma eu fui aprendendo alguma coisa e descobri que ele era algo bem mais do que isso, e foi já nesse espírito que li O Primo Basílio descobrindo que o autor tem muito mais a oferecer.

Já em O Crime do Padre Amaro a sensação foi de retornar à companhia de um conhecido. Lá estava novamente a narrativa realista completamente lotada de personagens cheios de deficiências morais, a crítica social, as ironias e tudo aquilo que fez Eça ser um mestre do gênero.

Porém, a grande peculiaridade deste livro é o alvo principal de suas críticas, ou seja, o clero português que espelharia os vícios da religião em todo o mundo. Os padres descritos na obra podem até ser representantes de uma minoria, mas são tão bem construídos que é impossível não identificá-los como verossímeis.

Eça se preocupa em mostrar que a maioria dos clérigos nada mais são que homens comuns que precisam seguir preceitos que lhe são impostos. Os desonestos não mudam de atitude ao serem ordenados pois continuam sendo o que são. Da mesma forma o apetite libidinoso do protagonista Amaro que não se torna milagrosamente santo ao vestir a batina.

Claro que isso é não é verdade necessariamente, os padres podem ser sim donos de virtudes ou mesmo exemplos de que a humanidade pode superar alguns de seus "pecados". Mas, na proposta crítica de Eça, a realização da pretensão é plena. A história é toda bem delineada em torno da sua visão pouco otimista sobre o contexto social clerical da sociedade portuguesa.

O estilo então nem se fala, o autor é sem dúvida alguma um dos maiores nomes do realismo e sabe conduzir a narrativa segundo as necessidades agradando não só os fãs do gênero como os amantes da literatura de forma geral.

Do início ao fim, a obra não deixa de lado nenhum dos elementos de uma tríade que eu costumo acreditar que todo bom livro tem de ser: coerente, atraente e competente. É ao mesmo tempo divertido e enriquecedor acompanhar a evolução da história narrada pelo português que sabe moldá-la do jeito que deseja.

O mais difícil é realmente apontar problemas numa obra que sem nenhuma dúvida é muito boa (criticar um clássico), todavia existe lá seus incômodos. O mais relevante é que a própria proposta de submeter o livro à crítica social às vezes parece comprometer a fluidez. Alguns fatos e descrições que certamente contribuiriam são ignorados em razão de um aceleramento que dá a entender ser benéfico à temática, mas que na mesma medida parece prejudicial ao desenvolvimento do enredo.

Vez por outra acabei tendo a impressão de que a história saltou em demasia, através de narrações indiretas, algumas situações que poderiam ser ótimas se desenvolvidas. Tanto que é comum perceber variações consideráveis no ritmo. Em certos momentos os acontecimentos ocorrem com vagareza, enquanto em outros os meses passam-se em poucas páginas

Mas esses problemas não são mais que realmente incômodos e nem de longe comprometem a habilidade que Eça tem em contar a história. Mesmo em momentos não tão brilhantes o livro consegue permanecer convencendo, atraindo e mantendo coerência.

O Crime do Padre Amaro só tende a incomodar pela sua temática polêmica e pelo seu teor crítico despido de idealismo, pois no ambiente das qualidades literárias e do mérito estilístico ele não decepciona sendo uma leitura mais que recomendada.




4 de 5 (Muito Bom)



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