11 de janeiro de 2012

Iris (2001) - Cinefilia Literária



Uma história de amor. Um filme de e para fazer felizes atrizes e atores que se dedicam a tal profissão de maneira sincera, compromissada e competente.

Esta é uma história verídica, sobre uma escritora e filósofa, chamada Iris Murdoch (1919-1999), ela foi reconhecida ainda em vida por suas obras, principalmente por seus romances que abordavam temas a respeito de Política e sobre o Bem e o Mal. Entre as honrarias conquistadas, destaco aqui o recebimento do título de “Dama da Ordem do Império Britânico”, em 1987, tal título é o equivalente feminino ao “Sir” dado aos homens.

Daqui em diante, algumas pessoas podem considerar haver Spoilers, então melhor avisar :)

Neste filme acompanhamos o final da vida de Iris, ao mesmo tempo em que flashes de sua juventude nos são mostrados, descobrimos que ela foi acometida pelo Mal de Alzheimer, enquanto a vemos, forte e transgressora no passado. Na juventude a interpretação cabe à atriz Kate Winslet e na velhice à Judi Dench, ambas estão maravilhosas e são na realidade, mas nem sempre papéis à altura de suas capacidades estão disponíveis, bem sabemos. O companheiro de Iris durante 43 anos de matrimônio e também autor do livro que deu origem ao filme John Bayley, é vivido na tela pelos atores, Hugh Bonneville (juventude) e Jim Broadbent (velhice), excelentes.

O que vemos é uma história de companheirismo e afeto acima de tudo, Iris e John eram pessoas imensamente diferentes, ele: tímido, doce, calmo; ela: cheia de energia, expansiva, clichê dizer isso eu sei, mas à frente do seu tempo. A paixão surgiu independentemente dessas diferenças, ou como um “tempero” a mais justamente por elas.

O fato é que quando a doença começa a manifestar-se em Iris, vemos John sofrer tanto quanto ou até mais do que ela, num processo de negação no início, que acaba se tornando cuidado no decorrer do tempo, porém em algum momento há um acesso de raiva por aquilo que foge ao seu controle, afinal o amor de sua vida está se esvaindo aos poucos, sua forma de pensar, a maneira instigante de diálogo que sempre houve entre ambos faz muita falta, onde está a mulher forte e determinada que ele conheceu? A Iris que ele sempre amou? Sofremos junto também.

Não esperem ver um filme com tônica de superação ou algo que lembre isso, acredito que ninguém tenha esperanças desse tipo advindas de uma história verídica sobre mal de Alzheimer, porém às vezes não é demais ratificar, a meu ver é deveras triste de maneira geral ir perdendo a capacidade de lembrar palavras, pessoas, lugares, enfim praticamente tudo e nesse caso específico de Iris, ou seja, alguém tão vívida e radiante e que fazia das palavras e da própria capacidade de pensar sua vida, toda essa experiência mesmo vista apenas por uma tela de TV, acaba tornando tudo ainda mais amargo. 

Não imagino, nem por imensa distância, como deve se sentir alguém que esteja vivenciando “de dentro” tal situação, como também não imagino o que pode acontecer com quem passa por estados de coma, ou mesmo por estados demenciais, não estou comparando o nível de gravidade entre eles, nem mesmo indicando que tenham a mesma origem, please! Estou me referindo à suposta alienação que eles causam perante este mundo em que vivemos e acreditamos ser o “real”. (The Matrix? Algo do tipo)

A dúvida persegue minha mente: será que há o sofrimento que julgamos existir ou pelo menos é da mesma forma? Do mesmo teor? Talvez não seja como se pensa, talvez seja um estado de libertação, de tranqüilidade, de possibilidades menos traumáticas da existência e de maior sabedoria, enfim como julgar?! Não sou esse outro ser, muitas vezes nem mesmo sei de mim e quem sabe? Então me permito esperar que não só Iris, mas outras tantas pessoas em condições semelhantes possam ser mais repletas do que seja felicidade em sua verdadeira essência.









Ficha técnica:
Lançamento: 2001
Livro de John Bayley chamado “Elegy for Iris”
Direção: Richard Eyre
Elenco: Judi Dench, Kate Winslet, Jim Broadbent, Hugh Bonneville, Penelope Wilton, Juliet Aubrey, Samuel West, Timothy West, Kris Marshall, Tom Mannion.

2 comentários:

  1. BRAVO!!Inconsciente à parte,suas palavras me fazem transbordar!! Se é refinamento ou não, vc aqui vai profundo e toca no essencial!!
    bjuss amada.

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  2. Oi Anônim@, agradeço muitíssimo pelos elogios, me deixam muito feliz principalmente em saber quem alguém mais lê esta coluna, além de mim mesma, obrigada!

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