23 de janeiro de 2012

A Guerra dos Tronos (As Crônicas de Gelo e Fogo 1 - George R. R. Martin) - Crítica / Resenha


Editora Leya (São Paulo - 2010) - 10ª reimpressão
Sinopse
Quando Eddard Stark, lorde do castelo de Winterfell, recebe a visita do velho amigo, o rei Robert Baratheon, está longe de adivinhar que a sua vida, e a da sua família, está prestes a entrar numa espiral de tragédia, conspiração e morte. Durante a estadia, o rei convida Eddard a mudar-se para a corte e a assumir a prestigiada posição de Mão do Rei. 
Este aceita, mas apenas porque desconfia que o anterior detentor desse título foi envenenado pela própria rainha - uma cruel manipuladora do clã Lannister. Assim, perto do rei, Eddard tem esperança de o proteger da rainha. Mas ter os Lannister como inimigos é fatal - a ambição dessa família não tem limites e o rei corre um perigo muito maior do que Eddard temia. Sozinho na corte, Eddard também se apercebe que a sua vida nada vale. E até a sua família, longe no norte, pode estar em perigo.

Obras exigentes não costumam ser aquelas que acabam alcançado o status de best-seller. Simplesmente porque grande parte das pessoas leem casualmente, através de títulos estipulados para atender a demanda da população que não quer, e muitas vezes ainda não consegue, se dedicar ao processo da leitura. É basicamente o livro que substitui a TV em seus programas tão simplórios que mesmo o cérebro mais cansado do trabalho consegue assimilar sem qualquer problema.

A Guerra dos Tronos é felizmente uma obra que exige um pouco mais do leitor, nada que nem de longe possa ser caracterizado como difícil ou complicado, mas simplesmente exigente em comparação com a maior parte dos grandes sucessos atuais.

A narrativa se desenvolve num universo medieval fantástico que a partir de Tolkien começou a ser mais palatável ao grande público. Nele temos 7 reinos agora unificados sob um estandarte, mas que nem de longe mostram uma plena tranquilidade pacífica entre si. Lá várias intrigas são gestadas e estas culminaram na guerra, o chamado jogo dos tronos (Game of Thrones) que intitula o livro em sua versão original.

Mas, descrever a obra apenas com este argumento generalista é descaracterizá-la de certa forma, pois as grandes qualidades da narrativa estão justamente em seus diversos detalhes. Os capítulos, por exemplo, recebem o nome de um certo número de personagens por meio dos quais a publicação orbitará. Cada um deles acaba assim emprestando sua perspectiva particular, dando ao leitor uma nova visão muito bem-vinda do cenário e ao mesmo tempo enriquecendo a personalidade do protagonista da história naquele instante.

Martin é competente em criar seu universo e usar um estilo de escrever condizente ao falar que normalmente se atribui à época. Porém, não é nada brilhante, apenas suficiente. Pois ele parece estar bastante a par de que a verdadeira força de Guerra dos Tronos e de sua escrita não está nestes aspectos e sim no desenvolvimento de suas várias tramas.

O leitor se sente curioso e envolvido na dinâmica da história que consegue mesclar muito bem as demandas individuais do personagem com os acontecimentos universais. Dependendo do grau de envolvimento daquele ciclo com o todo, vemos mais e menos relações, mas sempre é perceptível um universo unitário formado por um povo rico e díspare mas que mantém sua unidade.

Outra qualidade que deve ser aplaudida é o respeito do escritor com um mundo que se pretende crível e tende mais ao bruto do que ao heroico. A história consegue guardar uma relação bem mais estreita com a época que lhe inspirou. Elementos como vaidade, disputas, orgulho e covardia estão presentes sem muitas idealizações. Até coisas mais concretas como a presença do sexo, prostitutas e um rei bêbado (além de inúmeros outros exemplos) só ajudam a reforçar este caráter de verossimilhança.

Outro detalhe é que Martin tem coragem suficiente para não ter assim tanto apego aos seus personagens principais. Se você é daqueles que começa uma obra com a única certeza de que os protagonistas não falecerão abandone este hábito ao ler A Guerra dos Tronos, pois isso vai ocorrer e pelo que eu andei lendo é uma tônica de toda série As Crônicas de Gelo e Fogo.

De forma geral, o livro é um belo épico de fantasia; tem muitos detalhes, dinastias, personagens carismáticos e acima de tudo uma trama envolvente que emociona. É simplesmente muita diversão com qualidade para não acabar tão cedo com as suas quase 600 páginas exigentes, como eu já disse, mas completamente indolores.

Claro que o prazer necessita da simpatia do leitor pelo gênero, pois a obra é limitada a ele, o que se por um lado a impede de ser espetacular torna-a muito competente e honesta ao conseguir realizar bem aquilo a que se propõe.

Entre os problemas relacionados a sua aparente limitação estão as descrições que não se destacam se prestando meramente ao papel de situar o leitor. É fácil perceber que as pessoas e cenários acabam saindo um tanto genéricas diante dos olhos de quem lê; suficiente para segurar a história, mas fraco se analisado diante do que poderia ser se realmente bem feito.

Outro ponto que denota a preocupação de Martin em não sair de sua zona de conforto são as personalidades arquetípicas dos personagens que são bastante previsíveis em suas atitudes e modos de agir. Há o rei forte, valoroso e beberrão. O eunuco efeminado e fofoqueiro. O nobre honrado e sério. A rainha bela mas que é má e evoca tramas ardilosas. O anão que compensa sua condição física com lábia. A rainha corajosa e firme mas que ama seus filhos e é carinhosa. E por aí segue com mais uma dezenas de personagens cujo escopo você já viu antes. A maestria de Martin foi conseguir reuni-los todos de forma convincente e grandiosa.

O único defeito que incomoda realmente na proposta no livro é a insuficiência das descrições nos momentos de batalha. Se a ausência da descrição de um cenário não chega a incomodar tanto, quando isso se estende aos tão esperados combate há sim decepções. Martin, novamente, parece ter consciência disso pois muitas vezes ele opta por revelar o ponto de vista de quem não está diretamente no confronto, mas nesse caso deixa de ser aceitável e causa certa decepção quando vemos uma batalha que começa e termina com bem menos do que a expectativa lhe prometia no ínicio.

Enfim, o próprio tamanho deste texto já dá conta do número de detalhes que podem ser ditos numa análise de A Guerra dos Tronos. Em uma visão geral, o livro é um épico que sabe quais são suas forças e lhe conquista por elas e tem sim algumas fraquezas mas estas normalmente não incomodam pois são sabiamente postas em segundo plano.

Assim, o livro surge como uma opção mais que recomendada de uma obra divertida e emocionante que pode não arrebatar o leitor mas que com certeza consegue encantar e entreter por horas e horas de qualidade e competência. 

A Guerra dos Tronos não se destaca e nem decepciona pela sua forma estilística e narrativa mas  é um exemplo legítimo da boa história com "B" maiúsculo.




4 de 5 (Muito Bom)




2 comentários:

  1. Primeira resenha que li em que não se idolatra o autor e sua obra, parabéns (melhor em culhões do que publicações que temos aqui no Brasil, e só sabem pôr essa obra-prima[isso eu não negaria] em um altar). É bem verdade que R.R. Martin fez um ótimo trabalho, é bem verdade que li todos os livros públicados no Brasil e espero anciosamente pelo próximo, e a melhor parte: Primeira resenha em que não me sinto ofendido, quando eles insistem em comparar (falando que é melhor!) com o trabalho de Tolkien.

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  2. Muito obrigado pelo comentário Hebert, fico muito feliz que tenha gostado e que nossa proposta de passar uma opinião honesta tenha sido bem sucedida.

    Abraços.

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