1 de janeiro de 2012

Fernando Pessoa: O Roteirista - Papel & Película (Coluna)


O maior poeta português, múltiplo e complexo, tem agora mais uma faceta revelada: o de roteirista de cinema. Se alguns documentos pessoais e poemas de seu heterônimo Álvaro de Campos nos levam a crer que o autor criticava ferozmente o cinema mudo hollywoodiano, um livro recém-lançado em Portugal lança nova luz sobre a relação do escritor com a arte que nasceu cronologicamente junto com ele.

Se Fernando não gostava de Hollywood, isso não significava que desprezava o cinema como um todo. Pelo contrário: considerava esta nova arte uma excelente arma de propaganda, como mais tarde considerariam os nazistas. Mais do que isso, o que o poeta mais queria era promover Portugal em terras estrangeiras, e o cinema cairia como uma luva para tal objetivo. Tanto que Pessoa planejou criar uma produtora em Portugal, batizada de “Ecce Film”, com endereço já decidido: a Rua São Bento, 333-335, onde naquela época funcionava um dos estúdios de cinema mais bem equipados do país.

Além destas iniciativas surpreendentes, Pessoa também escreveu alguns roteiros para o cinema, com cunho claramente comercial e interessantes reviravoltas nas tramas. Algumas delas, escritas em inglês, tratam, curiosamente, de troca de identidade. Fernando Pessoa escreveu uma obra singular, criando diversos heterônimos, ou seja, outras personalidades literárias que possuíam nome, biografia, personalidade e estilo de escrita próprios. Os três mais estudados são Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, sendo este um homem futurista, ligado às novidades e, é claro, ao cinema. Prova da “influência” de Álvaro de Campo está no fato de que dois roteiros se passam em um barco e tal heterônimo, além de ser engenheiro naval, é fortemente ligado às viagens marítimas, como se pode observar pela leitura de seu poema “Opiário”.

Tudo isso foi reunido por Claudia Fischer e Patricio Ferrari em um livro intitulado “Argumentos para filmes”, publicado em Portugal em julho de 2011 e que deve ser lançado no Brasil em meados de 2012. Dos seis argumentos, dois foram escritos em francês e quatro em inglês, sendo que apenas um deles apresenta diálogos em português. Quatro deles já haviam sido publicados no livro francês “Courts-Métrages”, de Patrick Quillier. Nesta edição portuguesa, há a reprodução de todos os originais, a tradução para o português e notas com referências ao cinema na biblioteca particular de Pessoa e alguns artigos e cartazes de filmes que ele guardou.

Escritos na época do cinema mudo, os argumentos apresentam ampla descrição das cenas. Em um deles, chamado “The Three Floors”, podemos observar bem o delineamento de um filme silencioso, uma vez que se trata de uma história em que três famílias de camadas sociais distintas, vivendo num mesmo prédio, executam a mesma ação, cada uma a seu modo.

Não é prudente dizer, contudo, que o poeta foi um cinéfilo. Os documentos encontrados apontam quase para a direção oposta: ele estava tão interessado por cinema quanto qualquer cidadão culto europeu. A sétima arte só influenciaria a geração seguinte do Modernismo português. De fato, ele critica o cinema hollywoodiano e suas estrelas, como Mary Pickford, Valentino e Joan Crawford, devido ao que considerava ser um estrelato de curta duração e um entretenimento para as massas. Não podia estar mais errado nesta consideração. Por outro lado, enxergava arte nos cinemas alemão e russo e, de fato, as produções mudas desses países são até hoje admiradas como obras-primas.

Sem dúvida este livro vem para lançar luz na personalidade ainda um bocado obscura de Pessoa. A publicação atrairá vários entusiastas da literatura e do cinema, surpresos com a inventividade de seus argumentos. Nada mal para quem disse, ao ser convidado a responder um relatório sobre cinema: “Ao inquérito sobre o cinema não responderei. Não sei o que penso sobre o cinema”.


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