21 de janeiro de 2012

Cachinhos Dourados - Devaneios Literários (Textos)


Se olhando no espelho, ela não gostava do que via. Era confuso: ela estava satisfeita com sua imagem, mas não gostava de si mesma. No começo, ela não entendia por quê pensava do jeito que pensava.

Todos os dias, via a mesma garota refletida no espelho. Todos os dias, encarava a mesma dúvida. Por quê?

Ela gostava de seu rosto pequeno, do queixo fino, do nariz reto e dos lábios em um tom escuro de rosa.

Ela gostava, também, de como suas sobrancelhas arqueadas lhe conferiam um ar frio e calculista, irônico e solitário.

Ela gostava de como o castanho claro de seus olhos combinava com os tons louros das madeixas que caíam como uma moldura em volta de seu rosto.

Mas, mais do que tudo, ela gostava de sua pele ridiculamente clara, de sua palidez exagerada.

Era um rosto duro, com a tristeza e os insultos estampados em cada traço que o constituía. E, ainda assim, era um rosto bonito e ela gostava disso.

Mas isso não era tudo. Ela considerava seu rosto bonito, sim, mas não se sentia merecedora de nada disso. Olhando seu próprio reflexo, ela sabia que não era feia, embora se sentisse péssima, horrível. Por quê?

Às vezes, ela sentia como se tivesse roubado aquele corpo e estivesse apenas ali como parasita. Ela era horrenda por dentro, mas a casca apresentável distraia os pensamentos dos outros.

Ela duvidava que fizesse sentido para alguém, mas ela não sentia como se pertencesse àquele corpo. Olhava a mesma garota no espelho todos os dias, mas não se reconhecia. Não era certo. Ela não merecia aquilo.

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