31 de dezembro de 2011

Os Livros Mais Vendidos de 2011 - Autoajuda e Esoterismo


Finalizando a série com os livros mais vendidos de 2011 temos as obras de autoajuda e esoterismo, uma categoria que basicamente reúne aquilo que sobra dos gêneros de ficção e não-ficção. O destaque não poderia ser outro que não Ágape de padre Marcelo Rossi.

Leia Também: Os Mais Vendidos em Ficção e Não-ficção.


5° O Monge e O Executivo - James C. Hunter (Editora Sextante)


Mesmo lançado pela primeira vez no já longínquo ano de 2004 aqui no Brasil, o livro de James C. Hunter continua se destacando como a quinta obra mais vendida de 2011; 7 anos depois.

O escrito é um dos principais responsáveis por popularizar o subgênero conhecido como "autoajuda para empresários". O tema (como fica claro no subtítulo) basicamente gira em torno das qualidades daquele que deseja ser um líder, contado através da história de um executivo que indo mal na carreira e na vida pessoal vai procurar os ensinamentos de um lendário líder empresarial que agora é frade.

Curiosamente, o livro que no Brasil é um sucesso incontestável com mais de 2 milhões de exemplares vendidos tem bem menos relevância nos EUA onde foram comercializados menos de 500 mil exemplares. A razão para isto pode ser, em parte, o título em inglês que tem bem menos apelo comercial: The Servant (O Servo; em tradução literal)



4° Mulheres Inteligentes, Relações Saudáveis - Augusto Cury (Editora Academia de Inteligência)


Augusto Cury sabe como emplacar um livro de sucesso, entre suas habilidades para isto está a linguagem simples e a titulação do autor que é médico, psiquiatra e terapeuta; na visão de pessoas não tão instruídas um inconteste conhecedor da mente humana.

Mas até na capa de Mulheres Inteligentes, Relações Saudáveis está impressa a vocação para ser best-seller. O subtítulo dá a entender que a obra é o guia definitivo para os relacionamentos; um assunto sem dúvida bastante considerado por grande parte do público feminino.

O livro lançado em 2011 é o mais recente de Cury.



3° Por Que Os Homens Amam As Mulheres Poderosas? - Sherry Argov (Editora Sextante)


Por que Os Homens Amam As Mulheres Poderosas? é a obra de autoajuda mais vendida de 2011, pois os 2 primeiros lugares pertencem a escritos de cunho espiritual e religioso.

O livro da escritora estadunidense Sherry Argov é mais um daqueles que foram muito bem mesmo não sendo tão recentes. Aliás em 2009 (o ano em que foi lançado no Brasil) o título ficou com apenas a 10ª posição na mesma categoria de autoajuda e esoterismo.

Entre as curiosidades que merecem destaque, cabe mencionar o nome da obra me inglês: Why Men Love Bitches?, que em tradução literal é algo como Por que Os Homens Amam As Mulheres Vagabundas? e não Poderosas como acabou ficando em português para não assustar o publico. Olhando pelos números uma decisão muito acertada.


Mais sobre Por que Os Homens Amam As Mulheres Poderosas?:



2° A Vida Sabe O Que Faz - Zibia Gasparetto (Editora Editora Vida & Consciência)


Atrás apenas do fenômeno Ágape, o livro da escritora espírita conseguiu se manter com a vice-liderança mesmo tendo sido lançado no meio do ano. 

A obra é ditada para a médium Zibia pelo espírito Lucius (sempre com nomes marcantes esses espíritos) que conta o triângulo amoroso formado por Carlos que combate na Segunda Guerra e é dado como morto, sua "futura ex-esposa" então decide refazer sua vida com Gilberto mas eis que Carlos retorna e o resto são muitos dramas e desencontros com a assinatura da autora (ou de Lucius).

 Zibia Gasparetto já é uma senhora de seus 85 anos.



1° Ágape - Marcelo Rossi (Editora Globo)


O livro que mais nos acompanhou aqui nas listas de mais vendidos do Leia Literatura durante 2012 não poderia ser melhor escolha para ser o último a ser citado no site este ano (escrevo isso ainda em 2011).

A obra passou tanto tempo entres as mais vendidas por unir diversos fatores que permitiram a popularização. Entre eles cabe destacar a fama do autor, o preço baixo, a escrita extremamente simples, as poucas páginas e o apelo dentro da  população católica nacional que apesar de enorme carece de títulos que se adequem ao seu nível de instrução.



Veja o top 10 completo da revista Veja em cada categoria:


Com Informações de Veja, Wikipédia e Porto Cultura.


E por 2011 é só, Feliz 2012!

Os Livros Mais Vendidos de 2011 - Não-Ficção


Prosseguindo com as nossas listas de mais vendidos em todo o ano de 2011 vamos às obras de não-ficção, nessa categoria encontram-se desde biografias a livros históricos e jornalísticos. Veja abaixo os 5 primeiros que "levaram a melhor" neste ano com destaque para o jornalista Laurentino Gomes que emplacou dois títulos entre os mencionados.


Leia também sobre os mais vendidos em ficção e autoajuda e esoterismo.


5° Comer, Rezar, Amar - Elizabeth Gilbert (Editora Objetiva)


O livro foi publicado originalmente em 2006 e aqui no Brasil chegou há mais de 3 anos, em 2008. Já o filme estreou há mais de um ano em nosso país, mais precisamente no mês de agosto de 2010.

Mesmo não sendo recente em nenhum aspecto a autobiografia de Elizabeth Gilbert, interpretada nos cinemas por ninguém menos que Julia Roberts, continua bem classificada. A obra conta a viagem da escritora ao redor do mundo depois de tomar a ousada decisão de abandonar carreira, filhos e bens materiais numa jornada de autodescoberta (pelo menos é o que diz na sinopse). 

Atualmente Gilbert faz palestras motivacionais, até porque seu livro é mais um daqueles que misturam outros gêneros com a sempre bem recebida autoajuda (pelo menos por grande parte dos leitores da atualidade). 



4° 1808 - Laurentino Gomes (Editora  Planeta)


O livro que basicamente é um relato histórico-jornalístico da chegada da família real portuguesa ao Brasil com um apelo mais popular, foi o primeiro sucesso do jornalista Laurentino Gomes figurando entre os mais vendidos e rendendo fama e prêmios como o Jabuti de melhor obra de não-ficção de 2008.

Com o lançamento de 1822, que segue a mesmíssima linha, o antigo livro ganhou um novo gás retornando a lista de maiores êxitos comercias com uma bela quarta posição.



3° 1822 - Laurentino Gomes (Editora Nova Fronteira)


Mesmo estilo de escrita, mesma proposta, mesmo título numérico, mesmo escritor e mesmo prêmio de melhor livro de não ficção do Jabuti, só que referente ao ano de 2011. Essa é a história de 1822, a melhor representação de que repetir a dose pode dar muito certo.

A diferença deste novo livro é o tema - a independência do Brasil e suas consequências na criação da nação - e a editora, pois dessa vez quem assume a publicação do escritor é Nova Fronteira.


Mais sobre 1822:



2° Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil - Leandro Narloch (Editora Leya)


Este livro é mais uma história de repetição de fórmula, no entanto com consequência diversa do que ocorreu com Laurentino Gomes. A proposta até é semelhante àquela implementada pelo jornalista ganhador do Jabuti 2011, ou seja, é também um livro de teor histórico-jornalístico.

Porém, dessa vez, a obra que replica o sucesso (no caso Guia Politicamente Incorreto da América Latina) acabou abaixo desta que aparece em segundo lugar, ficando com a sétima posição. O título lançado em 2011 é também escrito por Narloch só que desta vez em parceria com Duda Teixeira .

A diferença em vendas de Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil para a obra mais recente é provavelmente fruto do natural maior apelo exercido pelo nosso país, sobretudo quando comparado com a América espanhola que alguns acreditam ser mais desconhecida para nós que a Europa.


Mais sobre Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil:



1° Steve Jobs - Walter Isaacson (Editora Cia das Letras)


Existem obras que vão ganhando espaço e existem os fenômenos. Vários fatores contribuíram para o sucesso da biografia autorizada de Steve Jobs, considerada como o livro definitivo sobre o ex-CEO da Apple. Os mais destacados certamente foi o falecimento do mestre da tecnologia em outubro, que causou toda uma comoção mundial, e o rápido lançamento que ocorreu ainda no final do mesmo mês.

Outra qualidade desta estreia foi a simultaneidade. Na mesma medida em que os estadunidenses puderam ter seu livro em inglês em casa, os brasileiros também conseguiram comprar uma versão totalmente em português editada pela Cia das Letras exatamente no mesmo dia 24 de outubro, .

O resultado foi que em pouco mais de 2 meses o livro se tornou o mais vendido do ano em seu gênero aqui no Brasil e entre todas as obras na Amazon.


Mais sobre a biografia de Steve Jobs:




Veja o top 10 completo da revista Veja em cada categoria:


Com Informações de Veja e Wikipédia


30 de dezembro de 2011

Os Livros Mais Vendidos de 2011 - Ficção


Na semana anterior a Veja parece ter dado aquela vacilada divulgando os livros mais vendidos em todo ano de 2011 como aqueles que tiveram melhor êxito apenas na semana referente ao dia 28 de dezembro o que pode ser visto nesta imagem, fazendo assim eu perder um bom tempo escrevendo artigo que logo deixou de fazer sentido.

Mas, deixando os lamentos de lado, vamos então a uma matéria especial do fim de ano revelando as obras que tiveram o maior êxito comercial durante todo 2011. Como são muitos títulos privilegiamos apenas o top 5 (por assim dizer) em cada categoria, o que por si só deu bem mais trabalho que as listagens de costume, mas que valeu a pena como apanhado geral deste primeiro ano de vida do Leia Literatura.

Neste post inicial começamos pelos livros de ficção. Leia também os mais vendidos em não-ficção e autoajuda e esoterismo.


5° Água Para Elefantes - Sara Gruen (Editora Sextante)


O best-seller de Sara Gruen misturou romance com muito drama e ambientou mais esta história de amor no cenário inesperado de um circo, dessa forma conseguiu se destacar nas listas de mais vendidos do The New York Times a ponto de se tornar filme que apurou relativo sucesso.

A produção cinematográfica que reuniu Robert Pattinson e Reese Witherspoon também não decepcionou no Brasil sendo uma das principais responsáveis por impulsionar o sucesso da obra escrita por aqui.


Mais Sobre Água Para Elefantes:



4° A Fúria dos Reis - George R. R. Martin (Editora Leya)


O segundo volume da série escrita por George R. R. Martin dispensa apresentações dando prosseguimento ao elogiado épico constantemente comparado com a saga O Senhor dos Anéis.

As Crônicas de Gelo e Fogo tem no momento três livros publicados, todos eles bem vendidos. A pior posição cabe ao volume mais recente, A Tormenta de Espadas, que aparece em nono lugar nesta lista dos mais vendidos no ano da Veja.


Mais Sobre A Fúria dos Reis:



3° Querido John - Nicholas Sparks (Editora Novo Conceito)


Romance, muito drama e otimismo; Nicholas Sparks consegue unir como poucos três características fortemente apreciadas pelos leitores contemporâneos, aplicando em sua narrativa ficcional evidentes conceitos da auto-ajuda. 

O resultado foi sucesso para o autor que teve Querido John como maior êxito do ano no Brasil, mas não único: ao todo ele foi responsável por 25% dos livros (5 de um total de 20) que figuram como os mais vendidos deste ano de 2011.


Mais sobre Querido John:



2° A Cabana - William P. Young (Editora Sextante)


Se Nicholas Sparks colocasse mais elementos religiosos em seus livros talvez alcançasse o best-seller A Cabana que também se utilizou de uma mistura de ficção e auto-ajuda para se tornar o segundo livo mais vendido do ano de 2011, mesmo tendo sido publicado originalmente em 2008. Resultado simplesmente impressionante.

A editora Sextante,  inclusive, teria tudo para se destacar nesse top 5 com duas obras, não fosse a série de George R. R. Martin.


Mais sobre A Cabana:



1° A Guerra dos Tronos - George R. R. Martin (Editora Leya)


O título de livro ficcional mais vendido do ano realmente ficou com A Guerra dos Tronos, primeiro volume com mais de 500 páginas do elogiado épico de George Martin.

E pelo que tenho lido da obra (recém-adquirida) posso dizer que é motivo de comemoração pois realmente se trata de uma publicação que se destaca pela qualidade e não só pelo apelo popular.

Por outro lado, quem também está comemorando com a aposta maravilhosamente bem-sucedida é o grupo Leya de Portugal que está indo bem em sua ambição de se tornar a maior empresa editorial em língua portuguesa.

Com Informações de Veja

25 de dezembro de 2011

Compras de Natal - Cecilia Meireles



Texto extraído do livro "Quatro Vozes", Editora Record - Rio de Janeiro, 1998, pág. 80. publicado no site: releituras.com


A cidade deseja ser diferente, escapar às suas fatalidades. Enche-se de brilhos e cores; sinos que não tocam, balões que não sobem, anjos e santos que não se movem, estrelas que jamais estiveram no céu.
As lojas querem ser diferentes, fugir à realidade do ano inteiro: enfeitam-se com fitas e flores, neve de algodão de vidro, fios de ouro e prata, cetins, luzes, todas as coisas que possam representar beleza e excelência.

Tudo isso para celebrar um Meninozinho envolto em pobres panos, deitado numas palhas, há cerca de dois mil anos, num abrigo de animais, em Belém.

Todos vamos comprar presentes para os amigos e parentes, grandes e pequenos, e gastaremos, nessa dedicação sublime, até o último centavo, o que hoje em dia quer dizer a última nota de cem cruzeiros, pois, na loucura do regozijo unânime, nem um prendedor de roupa na corda pode custar menos do que isso.

Grandes e pequenos, parentes e amigos são todos de gosto bizarro e extremamente suscetíveis. Também eles conhecem todas as lojas e seus preços — e, nestes dias, a arte de comprar se reveste de exigências particularmente difíceis. Não poderemos adquirir a primeira coisa que se ofereça à nossa vista: seria uma vulgaridade. Teremos de descobrir o imprevisto, o incognoscível, o transcendente. Não devemos também oferecer nada de essencialmente necessário ou útil, pois a graça destes presentes parece consistir na sua desnecessidade e inutilidade. Ninguém oferecerá, por exemplo, um quilo (ou mesmo um saco) de arroz ou feijão para a insidiosa fome que se alastra por estes nossos campos de batalha; ninguém ousará comprar uma boa caixa de sabonetes desodorantes para o suor da testa com que — especialmente neste verão — teremos de conquistar o pão de cada dia. Não: presente é presente, isto é, um objeto extremamente raro e caro, que não sirva a bem dizer para coisa alguma.

Por isso é que os lojistas, num louvável esforço de imaginação, organizam suas sugestões para os compradores, valendo-se de recursos que são a própria imagem da ilusão. Numa grande caixa de plástico transparente (que não serve para nada), repleta de fitas de papel celofane (que para nada servem), coloca-se um sabonete em forma de flor (que nem se possa guardar como flor nem usar como sabonete), e cobra-se pelo adorável conjunto o preço de uma cesta de rosas. Todos ficamos extremamente felizes!

São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes os estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão. E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias. Durável — apenas o Meninozinho nas suas palhas, a olhar para este mundo.

24 de dezembro de 2011

Num meio-dia de fim de Primavera - Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)


“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). - 32. site: Arquivopessoa.net


VIII — Num meio-dia de fim de Primavera


Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas —
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
«Se é que ele as criou, do que duvido.» —
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

……

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra

Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
……

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.


……

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

Insolência Quinzenal (Coluna) - "Notas Literárias de Natal"


“... Estrelas, que todos as vêem, e muitos poucos as medem” (Antônio Vieira).



Desde que Saramago publicou sua forma polêmica de contar a passagem pela face da Terra de Jesus muito já se comentou, debateu... Sim: o diabo! Tudo, como também mais um pouco, pois se fez e refez sobre tal personagem: humana criatura que tanto nos fascina para considerarmos ela divindade criadora pela nossa fé. Fé que remove montanhas... Montanhas de tolerância por vezes: quando Saramago se torna sua vítima por exemplo. Dos males o menor, contudo, pois crer é sinônimo de matar e morrer também... Em nome de Jesus!

É provocador mas até que vez por outra queremos o relato pessoal desse protagonista sobre sua vida. Venhamos e convenhamos: tais relatos são subjetivos como quaisquer outros. Impossível para nós é ter a realização dessa vontade todavia: não adianta desejar. Vontade comum nossa de pôr um ponto final por tudo! Podemos contrapor esta com outra: temer ir mais adiante na busca de qualquer coisa. Gente considerada sábia com teimosia, mesmo sem as esperanças da certeza final (Certeza final?), tenta chegar mais perto do que poderia ser talvez o “fato concreto”.

Portanto Jesus, em seu momento por nossa realidade considerada concreta, misterioso se faz em inúmeros pontos biográficos aparentados com as estrelas que, semeadas no céu, nos encantam mas se mantêm, por mais buscadas nas constelações ou galáxias, ainda distantes. Lembremo-nos porém de Vieira quando procura no Sermão da Sexagésima compreender o melhor modo de se pregar as palavras atribuídas ao mesmo Jesus cá discutido para que quaisquer criaturas as entendam:


“O pregar há de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas:


‘ ... as estrelas nas ordens de seus cursos... (Jz. 5,20)’.


Todas as estrelas estão por sua ordem, mas é ordem que faz influência, não é ordem que faz lavor”.


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Dificuldades temos de saber bem sobre Jesus pelo seu caráter influenciador em tanta gente por tanto tempo. Sabemos que diversas pessoas acreditam piamente nas influências estrelares, consultando tantos horóscopos quantos suas crenças permitem, onde tais influxos celestes proporcionam equilíbrios e desequilíbrios durante suas vivências... Acaso Jesus seria daquelas estrelas fundamentais à sobrevivência mas que não podem ser enxergadas de perto com riscos de perder a visão? Seu natal vem a ser celebrado no dia do sol comemorado pela gente, denominada de maneira cristã, pagã. Talvez exagero seja tal comparação... Porém muitos indícios pelo mundo temos da força que Jesus exerce sobre nós. Ao menos Estrela d’ Alva!

Mas... Estrela d’ Alva vem a ser considerada símbolo da mãe de Jesus? Que gafe minha, Maria!

Vênus... Maria? Bom é voltarmos ao tema.

Consideremos também que sem tal influência Jesus não nos interessaria tanto. Nem tema seria de meu texto para lá de grande motivado para dar mais uma mensagem natalina compreendida no meio de tantas hoje. Discutí-lo desde suas referências dadas por Mateus, Lucas, Marcos e João até Saramago sempre será difícil. Nossa salvação talvez venha na profundidade tomada pela discussão por causa justamente do confronto das pessoas que têm fé com suas adversárias: é processo dialético! Também há seu lado bom portanto nas reportagens sensacionalistas feitas por revistas ou canais de televisão questionando sua comprovação existencial. Comprovação existencial? Para quem acredita basta crer. E quem não a personagem e seu significado para boa parte dos seres humanos há de bastar. Eis assim a festa de Natal dando motivo para ser festejada.


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Nos últimos dias dos anos em que vivemos as mensagens de paz mais amor preenchem a paisagem comumente monótona da vida que levamos. Enchem a paciência de quem já sabe que se surtir algum efeito disso será mínimo para mover qualquer mudança na mesma paisagem. Enfim: a desesperança também é natalina.

Paisagem nefasta?

Mas ao meio de tantos recadinhos bregas em cartões que tal ler a mensagem principal? Sei que temos pecados filhos da preguiça provocadores da não leitura que grande já não pode ser: é sem tamanho! Nossa leitura se resume por tanta porcaria... Jesus! É da fonte que vem o rio porém. Só vamos entender o festejo satisfatoriamente quando nos dermos conta da boa nova trazida pelo messias do novo testamento. Proponho tal leitura não só religiosamente. Portanto vamos lidar com Jesus por todos os meios e não ameaçado pela popularidade de Papai Noel.

Jesus nos salva? Não sei. Por enquanto... Seguinte!

Vieira desejava que gente defensora da fé no Jesus tão famoso levasse tal celebridade por qualquer parte. Daí que toda pregação deveria ser feita bem que nem a do céu com estrelas:


“As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há de ser o estilo da pregação: muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo: as estrelas são muito distintas e muito claras e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem, e tão alto que tenham muito que entender nele os que sabem”.


Pena que do Jesus histórico não podemos obter tanta facilidade. Pelo menos lidamos com a complexidade que lhe vem a ser devida! Deveras a figura polêmica, mesmo sem Saramago, protagonista do cristianismo deva sua popularidade mais a fé do que pelos méritos humanos que possamos achar nela: carisma por exemplo. Contudo não podemos negar que não é para qualquer um liderar meio mundo de gente que busca pautar a sua vida nos ensinamentos do Cristo seu Jesus... E considerando quem o segue como também quem não é fundamental Jesus:


“O rústico acha documentos nas estrelas para sua lavoura, e o mareante para a sua navegação, e o matemático para as suas observações e para seus juízos. De maneira que o rústico e o mareante, que não sabem ler, nem escrever, entendem; e o matemático, que tem lido quantos escreveram, não alcança a entender quantas nelas há”.


Seguimos a luz celeste que nos conduz a Belém: um astro nos guiando para saber da melhor maneira Jesus astro também. Certamente mais popular entre tantos outros, supostos ou não, como “The Beatles” por exemplo. Quer seja simples pessoa rústica da Judéia no princípio quase da contagem do calendário por nós usado; quer seja salvação de todos os seres humanos sendo Cristo: saibamos dele como forma de também nos compreendermos.


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Podemos tomar o caminho de Damasco que nem Paulo. Que nem Brás Cubas igualmente? Não vem ao caso. Podemos tomar outro caminho também para chegar onde Caeiro mora com o seu Menino Jesus. Ambos iguais praticamente considero.

Virgem do Prado (Rafael Sanzio)




Fotos: Astronomia no Rodolfo (blogspot) e Google


23 de dezembro de 2011

24 de Dezembro: Aniversário de Stephenie Meyer, A Autora de Crepúsculo


Nessa véspera de Natal comemora 38 anos de vida a escritora Stephenie Meyer que dispensa maiores apresentações já que é a autora da maior série feminina-juvenil dos últimos tempos; Crepúsculo.

A saga dividida em quatro volumes, além das edições especiais, foi o primeiro livro escrito pela autora, que com seu misto de romance idealizado descrito com muita simplicidade e apelo adolescente conseguiu conquistar leitores de todo mundo se tornando modelo para diversas obras para jovens adultos existentes atualmente.

Na série Bella é uma garota sem grandes traços marcantes que se apaixona por um vampiro estilizado, este é todo romântico, respeitoso e brilha no sol em vez de morrer diante do mesmo. Mais tarde aparece mais um ser fantástico, o lobisomem Jacob, para completar o triângulo amoroso e confirmar que a garota realmente tem uma queda por não-humanos.

Se no mundo a série já é muito bem-sucedida, no Brasil ela consegue superar até o fenômeno Harry Potter tanto em venda de livros como na bilheteria dos cinemas.

Meyer também já se arriscou fora do ambiente de Crepúsculo com A Hospedeira, o livro angariou sucesso figurando nas primeiras posições em várias listas, o que seria ótimo para qualquer outra obra mas que acabou decepcionando alguns analistas que tinham previsões ainda mais grandiosas.

Esse mais novo livro foi lançado em 2008 e a autora cogitou publicar sequência, atualmente, entretanto, ela diz que escreveu os dois primeiros capítulos de uma continuação que provavelmente não sairá tão cedo já que está trabalhando em um novo projeto em paralelo no momento e este tem prioridade ao que se sabe.

Veja algumas das nossas matérias já publicadas sobre a saga de Meyer:

Stephenie Meyer Revela em Livro que Jacob Não Existiria Na História Original
O Direito de Ler Crepúsculo - [Coluna] Ler é Compreender
Harry Potter x Crepúsculo (Twilight)
Anne Rice Ironiza Vampiros de Crepúsculo em Comparação aos Seus no Facebook 

Os Livros Mais Vendidos da Semana - 28 de Dezembro de 2011




A última lista de mais vendidos de 2011 trouxe como grande novidade o retorno do livro A Guerra dos Tronos (que eu comprei recentemente aliás) à liderança em seu gênero.

Abaixo você poderá ler maiores detalhes sobre os "vencedores", para os livros mais vendidos da semana referente ao dia 21/12 clique aqui.


Ficção: A Guerra dos Tronos (George R. R. Martin)


George R. R. Martin volta para a primeira posição depois de longa hegemonia de As Esganadas, só interrompida pelo próprio livro A Guerra dos Tronos algumas semanas atrás. Porém, dessa vez, a queda do best-seller de Jô Soares oscilou mais do que de costume (bem mais) caindo da 1ª para a 10ª colocação.

Na segunda posição nada melhor que um livro espiritual para a época de Natal (até rimou), e neste departamento A Cabana de William P. Young se prestou bem ao papel.

Em terceiro mais uma obra sentimental para o Natal (tá, já chega), no caso um romance do sempre presente na lista de mais vendidos Nicholas Sparks. Curiosamente não foi o mais recente título do autor, Um Homem de Sorte, e sim o já adaptado para os cinemas Querido John.


Mais sobre Guerra dos Tronos:



Não Ficção: Steve Jobs (Walter Isaacson)


A única obra que não perdeu a primeira posição desde sua estreia foi a biografia de Steve Jobs escrita por Walter Isaacson e desta maneira acabou 2011. 

Segunda e terceira posições ficaram com livros não tão recentes assim, respectivamente Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil de Leandro Narloch e 1822 de Laurentino Gomes que ganhou o Jabuti de melhor obra de não-ficção.


Mais sobre a biografia de Steve Jobs:

Biografia de Steve Jobs se Torna Livro Mais Vendido da Amazon em 2011


Autoajuda e Esoterismo: Ágape (Pe Marcelo Rossi)


Fechando a última lista de mais vendidos de 2011 nada melhor que Ágape (ou não); uma obra religiosa para o maior feriado religioso do ano.

Em segundo e terceiro lugares também surgem livros um pouco mais antigos; são eles A Vida Sabe O Que Faz de Zibia Gasparetto e a volta de Por Que Os Homens Amam As Mulheres Poderosas de Sherry Argov para as primeiras posições; necessariamente nesta ordem.

Veja abaixo o trailer do livro de padre Marcelo Rossi e até o ano que vem.



Mais sobre Ágape:


Veja o top 10 completo da revista Veja em cada categoria:



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