18 de dezembro de 2011

O Nome da Rosa (1986) - Cinefilia Literária


Assisti a este “O nome da Rosa” inteiro apenas recentemente, apesar de ter tentado vê-lo outras vezes, em outras épocas de minha vida, a pessoa que eu era não se interessava por este filme, por esta história, esta é a verdade, sempre sentia uma grande monotonia e não havia atenção suficiente que me fizesse entender o que se passava e então eu desistia sem muita culpa.

E realmente eu não fazia a menor ideia do que se tratava este filme, mesmo no final fiquei com dúvidas e assisti aos extras (que bom haver extras com conteúdo a acrescentar algo ao enredo, sabemos que quando existem, nem sempre é assim) para tentar amenizá-las.

O escritor do livro de mesmo nome, é o italiano Umberto Eco, autor deveras conhecido de romances e ensaios, também é filósofo, bibliófilo e linguista. O filme não é cópia literal do livro, o diretor Jean-Jacques Annaud (que também dirigiu o muito conhecido, pelo menos nos meios acadêmicos, “A Guerra do Fogo”), fez algumas alterações modificando a importância e rumos de algumas personagens, tornando algumas passagens menos amargas, para assim obter um maior alcance de público, isso no meu entender, pois não é o que o próprio diz, vale ressaltar.

Vamos ao enredo... Spoilers à vista.

Num Abadia Beneditina da Itália Medieval, no ano de 1327, representantes da Ordem Franciscana e da Delegação Papal marcaram um tipo de reunião, confesso não lembrar o nome formal, se é que disseram, para decidirem se a Igreja deveria doar parte de suas imensas riquezas, é nesse ínterim que chegam um monge franciscano Guilherme de Baskerville (Sean Connery, muito bom) e seu fiel escudeiro, ops, o noviço Adso de Melk (Christian Slater, quase sempre com cara de bobo hehehe), porém, mortes ocorridas misteriosamente acabam desviando o foco do espinhoso tema. A grande maioria dos monges acredita que o próprio demo está por trás de tudo, mas não Guilherme de Baskerville; e bem ao estilo Sherlock Holmes de ser, ele inicia uma investigação que dá ênfase aos aspectos intrigantes presentes em todos os corpos encontrados: línguas e dedos roxos.

Em sua busca por pistas, Guilherme percorre com Adso os diversos ambientes um tanto obscuros da abadia, aproveito para ressaltar, a dedicação com que Jean-Jacques Annaud recriou a atmosfera relativa àquele período da Idade Média, atentando para detalhes como os tipos de cortes dos cabelos dos monges, suas roupas, trejeitos e cânticos, voltando à busca de pistas de Guilherme, ele começa a notar uma certa dificuldade na obtenção de informações, principalmente quando chega ao ambiente da biblioteca, lá a presença dele é vista com desconfiança e há um diálogo que diz muito sobre a simbologia que perpassa toda a trama.

Guilherme e o bibliotecário , homem de grande poder na estrutura hierárquica da abadia, defendem pontos de vista completamente diferentes sobre o humor, o riso, e se Jesus Cristo também sorria, pode parecer irrelevante dizendo desta forma, mas na verdade não é, no fim da discussão que a mim pareceu ganha pelo bibliotecário ele afirma que se a possibilidade do riso, do escárnio, for aberta a toda pessoa, será deixada uma brecha para que toda a gente faça o mesmo com Deus e seria algo deveras perigoso, então deve ser eliminado.

Toda a história lança nosso olhar à concentração de poder, percebemos que o acesso ao conhecimento é dirigido a pouc@s, o acervo da biblioteca é restrito e guardado em verdadeiros e literais labirintos, aqui cabe explicar um dos vários significados dados ao título do filme “O nome da rosa”, era uma expressão que na Idade Média significava o infinito poder das palavras, desta maneira, tal infinito precisava ser limitado, restringido.

Outra explicação possível toca em outro assunto ainda não abordado neste texto, uma figura feminina (a única) de grande importância nesta obra, a jovem (que também poderia ser a rosa do título) por quem Adso se apaixona e com quem se relaciona sexualmente, representando o pecado, se a mulher em nossos dias ainda não é tratada pela Igreja de maneira das mais respeitosas, para dizer o mínimo, imagine naquele período da história? Para se ter uma ideia mais clara do que estou dizendo, segue uma passagem exata contida no filme: “Ela é linda, não é? Quando uma fêmea, por natureza tão perversa, torna-se sublime por santidade, então ela pode ser o nobre veículo da graça. Bonitos são os seios, que alimentam um só bebê.” Bem, isso aqui era um frei falando sobre uma imagem de nossa senhora alimentando o menino Jesus, vejam vocês...

Não bastando todos os elementos citados acima há espaço para a Inquisição e suas atrocidades, na figura de Bernardo Gui (F. Murray Abrahan.) que logicamente não concorda com o posicionamento de Guilherme e tenta até incriminá-lo pelas mortes, o fato é que mesmo enfrentando várias dificuldades, Guilherme de Baskerville descobre que as mortes ocorreram devido a um livro creditado a Aristóteles, na ânsia de preservar seu conteúdo, o bibliotecário colocou veneno, cuja cor era roxa, nas pontas das páginas, fazendo com que durante o movimento de levar o dedo à boca, ao passá-las, as pessoas automaticamente fossem envenenadas, morrendo pouco tempo depois.

Este é um filme de muitos detalhes, que merece ser visto com atenção, com certeza há vários elementos que deixei escapar, tanto neste texto que já está longo para meus padrões de escrita e paciência, como também na lembrança e mesmo no entendimento, não quero afirmar com isso que pretendo vê-lo novamente num futuro breve, mas sim que vale a pena ser revisitado algum dia.

Ficha técnica:
Lançamento: 1986
Livro escrito por: Umberto Eco
Direção: Jean-Jacques Annaud
Elenco: Sean Connery, Christian Slater, Helmut Qualtinger , Elya Baskin , Michael Lonsdale , Volker Prechtel, Feodor Chaliapin, Jr. William Hickey , Michael Habeck , Urs Althaus , Valentina Vargas , Ron Perlman , Leopoldo Trieste, Franco Valobra , Vernon Dobtcheff, Donald O'Brien, Andrew Birkin, F. Murray Abraham, Lucien Bodard, Peter Berling,Pete Lancaster.

4 comentários:

  1. Vi este filme e tive impressão semelhante, na época achei apenas razoável mas hoje acho que merece ser assistido novamente.

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  2. Pois é, tive realmente uma boa surpresa nesta última tentativa...

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  3. Tentei ler o livro, há um tempo atrás, e não terminei.
    Vi o filme na época e revi umas partes há uns dias com meu filho. Vale ser revisto, sim.
    Parabéns pelo texto, Elis!
    Rosy

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