3 de dezembro de 2011

Alice no País das Maravilhas: de Walt Disney a Tim Burton - Papel & Película (Coluna)


Quando Lewis Carroll (pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson) escreveu uma aventura fantasiosa para sua amiguinha Alice durante um passeio de barco, ele provavelmente não imaginava a dimensão que esta obra iria tomar. Publicada em diversas línguas, tornou-se best-seller infanto-juvenil e ganhou notáveis adaptações para o cinema, sendo a primeira em 1903. No entanto, as mais famosas saíram das mãos de Walt Disney, em 1951, e de Tim Burton, em 2010.

A Alice que todos nós temos na mente em nada se parece com Alice Pleasance Liddell, a garotinha original. Loira, cabelos compridos e olhos azuis, da mesma cor do vestido, essa é a personagem apresentada no desenho animado da Disney. A Alice real, nascida em 1852, tinha, na época em que a história foi escrita, cabelos curtos e escuros. Na mais recente versão do livro para o cinema, também vemos uma atriz que lembra a Alice do imaginário, a jovem Mia Wasikowska.

Em se tratando de fidelidade ao original, o filme de Diney ganha com folga, talvez porque a versão de Tim Burton seja uma releitura modernizada da fantasia. De fato, Alice, com 19 anos e não mais sete (idade da história original), foge de uma festa ao descobrir que será pedida em casamento e segue, mais uma vez, o Coelho Branco, que continua atrasado. Para surpresa geral, Alice continua tendo problemas com as mudanças de tamanho e outras maluquices, mesmo já tendo visitado o País das Maravilhas. A explicação dada é que as lembranças desta aventura passaram a aparecer para ela apenas em pesadelos.

A história de Walt Disney com Alice era antiga. Já em 1923, ainda lutando para começar sua carreira, ele pretendia realizar uma adaptação dos livros de Carroll. De certo modo, ele conseguiu seu intento, dando vida a um desenho animado mudo com Alice sendo interpretada por Virginia Davis, na técnica de live-action, que mistura atores e desenhos. Só que isso não era suficiente para o ambicioso empresário. Já bastante famoso, em 1937 ele pensou seriamente em fazer de Alice seu primeiro longa-metragem, com Mary Pickford quarentona no papel principal, mas o projeto fracassou e a honra coube a “Branca de Neve e os Sete Anões”. Finalmente, no final da década de 1940, seu velho sonho saiu do papel e entrou para a película. Os desenhos em estilo modernista foram feitos pela animadora Mary Blair em parte baseando-se nas ilustrações do livro original, feitas por John Tenniel, e vários dos versos nonsense de Carroll transformaram-se em música, tornando Alice um dos filmes da Disney com maior quantidade de canções diferentes.

Alice Kingsleigh, como foi renomeada em 2010, age de maneira oposta ao que se espera de uma garota de sua época e idade, sendo bem mais corajosa, embora fuja do casamento. Ela encontra, durante sua viagem, as mais estranhas criaturas feitas com ajuda da computação gráfica, conferindo um novo charme às personagens de Carroll. A lebre maluca esteja talvez maluca demais, mas é o Chapeleiro Louco, interpretado por Johnny Depp, que chama a atenção do público e guia Alice pelo País das Maravilhas, ao contrário da história original, em que ele só aparece no chá maluco e no julgamento.

Ambas as versões apresentam uma mescla de passagens dos dois livros mais famosos de Lewis Carroll: “Alice no País das Maravilhas” e sua continuação “Através do Espelho e o que Alice encontrou lá”. Alguns bons exemplos são os amalucados gêmeos Tweedledee e Tweedledum, presentes nas duas versões. Na de Walt Disney, temos a Rainha Vermelha, uma personagem humana, ao invés da Rainha de Copas, uma carta de baralho. Na de Tim Burton, além da Rainha Vermelha, inspirada na esposa do diretor, a atriz Helena Bonham Carter, há também a Rainha Branca, interpretada por Anne Hathaway. Outra novidade é o monstro que Alice enfrenta, chamado em inglês de “Jabberwocky”, que só existe em “Através do Espelho”. Afinal, Walt Disney faria uma garotinha de sete anos matar um monstro?

Curiosamente, os filmes de Alice têm como tradição serem um fracasso em sua estreia. Isso aconteceu com a versão de 1951 e todas antes dela. Apenas a mais recente conseguiu inverter essa realidade. Devido ao apelo comercial que nomes como Tim Burton e Johnny Deppy representam, o filme tornou-se a estreia mais rentável de toda a história do cinema 3D. Seguindo este êxito, os estúdios lançaram também um videogame e edições do filme em Blu-Ray. Mas não pensem que a produção de 1951 foi esquecida. No final da década de 1960, o desenho animado passou a ser visto como cult e atraiu a juventude interessada em narcóticos ou qualquer outra coisa psicodélica como o clima que permeia o filme. Mais tarde, o sucesso da animação continuaria com edições em vídeo, DVD e Blu-Ray, além de centenas de produtos com o tema.

Em 1951, Alice foi indicada ao Oscar de Melhor Trilha Sonora, perdendo para o grande campeão da noite, “Sinfonia de Paris”. A mais nova versão teve mais sorte: de três indicações, venceu em duas categorias (Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino), perdendo Melhores Efeitos Especiais para “A Origem”. Com ou sem prêmios da Academia, as duas versões de Alice conquistaram o público, tornando-se sinônimo da obra de Carroll, igualmente encantadora nos livros e no cinema.

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