6 de novembro de 2011

Moça com Brinco de Pérola (2003) - Papel & Película (Coluna)


A integração entre as diversas artes é sempre bem-vinda. Diálogos riquíssimos podem ser estabelecidos entre música, escultura, pintura, dança, literatura, fotografia e, é claro, cinema. “Moça com brinco de pérola” é um desses exemplos de excelente integração artística. A história por trás de uma famosa pintura foi publicada em livro e, mais tarde, adaptada para as telas.

O quadro homônimo ao livro e ao filme foi pintado em 1665 e, assim como o que acontece com a Monalisa, muito se especulou sobre a moça que aparece na pintura do holandês Johannes Vermeer. Em 1999, foi publicado um livro de Tracy Chevalier que tenta desvendar, com grande licença poética, a identidade da modelo. Logo tornou-se best seller, com sua história de amor proibido e intrigas familiares entre diferentes classes sociais.

A jovem humilde Griet (Scarlett Johansson, perfeita para o papel) vai trabalhar na casa do pintor Vermeer, onde também moram sua esposa, sua sogra, vários criados e sua numerosa prole, sempre a aumentar. Pressionado por todos, Vermeer (Colin Firth, Oscar de Melhor Ator em 2011) não tem muito sucesso com suas pinturas, conseguindo algum dinheiro apenas quando pinta sob encomenda, tentando agradar ao seu patrocinador, Van Ruijven (Tom Wilkinson).

O filme bem poderia ser uma produção do cinema mudo. Como uma discreta empregada, Griet passa quase o tempo todo em silêncio e são suas expressões que mostram o que acontece com ela. O mesmo acontece com Vermeer, normalmente enclausurado em seu ateliê, lugar exclusivo onde pode criar longe da interferência familiar. Em silêncio, eles trocam olhares e o pintor ensina a criada a misturar tintas, ajudando-o em seu trabalho. Logo ele decide usá-la como modelo para alguns quadros: além da pintura-título, ele também se inspira nela para pintar “Jovem com uma jarra de água” (1662-1663).

Parece estranho que um filme baseado em um livro use tão poucos diálogos. Talvez seja isso que o torne único e fascinante: a maneira como quase toda a ação está subentendida, ao contrário da obra escrita, na qual todas as respostas podem ser encontradas pelos espectadores menos atentos (ou pouco criativos). É no livro, por exemplo, que se encontra um paralelo interessante: Griet aparece quase o tempo todo com seu cabelo coberto por um turbante, como na pintura (mostrando-se recatada) no entanto, quando o açougueiro Pieter (Cyllian Murphy) pergunta-lhe como é seu cabelo, ela responde que ele é escuro e rebelde (um simbolismo para a selvageria amorosa que tem dentro de si e que é despertada em seu contato com Vermeer).

A reconstrução da época é bastante realista, embora não muito agradável. De fato, não dá vontade de viver naquelas ruas cinzentas da cidade holandesa de Delft, escura e triste, contrastando com as pinturas de Vermeer, que abusam da luz e das belas cores. E a fotografia, de responsabilidade do português Eduardo Serra, contrapondo o exterior com o interior do ateliê, dá ares barrocos à produção, transportando-nos para aquela difícil e fascinante época. Não foi à toa que Figurino, Direção de Arte e Fotografia foram indicados ao Oscar.

Pela rigidez da sociedade holandesa protestante do século XVII, Vermeer e Griet não podiam consumar seu amor. Ela tinha um emprego a zelar e ele, embora não pareça se importar muito com isso, talvez certo de sua genialidade não-reconhecida, tem toda a pressão vinda de seu mecenas e de sua família. O maior símbolo da relação proibida que se desenvolve entre os dois é o brinco de pérola, colocado na moça pelo próprio pintor em uma sugestão de relação carnal.

Em um mundo em que empregadas sabiam mais de arte que os mecenas, não é de se espantar que Vermeer, assim como outros grandes pintores, não tenha conquistado fama durante a vida. Morreu aos 43 anos e ficou longo tempo esquecido, até que, em 1866, um historiador de arte divulgou ao mundo uma série de pinturas que provam o talento do pintor. Hoje, merecidamente reconhecido, estima-se que existam de 35 a 40 trabalhos remanescentes dele em diversos museus.

Com uma história fictícia que bem poderia ser real e todo um clima de pintura renascentista, “Moça com brinco de pérola” agrada a admiradores de qualquer uma das artes, que certamente nunca mais olharão para uma pintura sem pensar na história por trás dela.

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