23 de outubro de 2011

Psicose (1960) - Papel & Película (Coluna)


Mesmo quem não é cinéfilo reconhece a cena do assassinato no chuveiro, momento mais marcante deste grande clássico de terror / suspense e ponto crucial na filmografia do mestre Hitchcock. O que nem mesmo alguns cinéfilos sabem, no entanto, é que “Psicose” é a adaptação de um romance.

A secretária Marion Crane (Janet Leigh) rouba 40 mil dólares de seu patrão e foge, decidida a resolver problemas pessoais e casar-se com o homem de quem é amante. Em meio à fuga, tem de parar em um motel de beira de estrada para pernoitar. O proprietário do local é Norman Bates (Anthony Perkins), um rapaz solitário, tímido e simpático. Durante a noite, Marion é brutalmente assassinada. O crime leva a irmã de Marion, Lila (Vera Miles), a contratar o detetive Arbogast (Martin Balsam), que vai ao estabelecimento de Norman investigar o acontecido. O que eles descobrirão é muito mais surpreendente e assustador que o que qualquer um poderia imaginar.

Quem procurar o livro de Robert Bloch dificilmente vai encontrá-lo: logo após a compra dos direitos autorais da obra, Hitchcock retirou-o de circulação para que niguém descobrisse o fim da história antes de ir ver o filme. Até hoje é uma complicada tarefa comprar o livro. A inspiração foi o criminoso Ed Gein, preso em 1957 no Wisconsin. Dois anos após a prisão era publicada a obra que contava a triste história de um homem sozinho e repugnante, porém bastante culto, que sofria de Complexo de Édipo.

Em muitos detalhes o livro difere do filme. No original, “Mary Crane” é uma moça morena, enquanto no cinema ela se tornou mais uma das famosas “loiras geladas” do diretor Hitchcock. A maior diferença se refere à descrição de Norman: na obra escrita ele é um homem de 40 anos, baixo, muito gordo, de cabelos brancos, óculos e atos bastante desagradáveis (ele inclusive é capaz de DECAPITAR Mary depois de tê-la esfaqueado!). Já na obra filmada ele é um homem mais jovem (Perkins tinha 28 anos na época das filmagens), magro, alto, de cabelos escuros e que inspira a simpatia do público. Com maestria, Hitch foi capaz de melhorar e muito o original com pequenas modificações.

A fotografia em preto-e-branco, depois de três trabalhos coloridos de Hitch, é explicada pelo fato de isso tornar o filme mais barato e também por a cena do chuveiro ser forte demais para a plateia. Tal cena foi filmada sem a presença de Perkins e um dublê foi usado para seu papel, a fim de esconder ao máximo a identidade do criminoso. O chuveiro mostrado tinha dois metros de diâmetro para que a imagem da água caindo ficasse mais nítida.Os barulhos das facadas foram criados esfaqueando um melão e o sangue que se vê é, na verdade, calda de chocolate. 

Outra marca registrada da produção é sua trilha sonora (tida como a quarta melhor da História do cinema), composta pelo colaborador usual de Hitchcock, Bernard Herrmann. Há apenas instrumentos de corda, aumentando o suspense das cenas. A fuga de carro de Marion é uma delas, com a expectativa criada pela música. A cena foi recriada 21 anos depois em “De repente, num domingo”, pelo cineasta e admirador do mestre do suspense François Truffaut.

Por mais que todo o elenco, apesar de pouco conhecido, esteja bem em cena, é inegável que o filme pertence a Anthony Perkins. Seus trabalhos anteriores geralmente o retratavam como um rapaz sensível e bonzinho, fazendo com que o público esperasse que seu personagem fosse agradável também nesse filme. Apesar de já ter sido indicado ao Oscar como Ator Coadjuvante em 1956 por “Sublime Tentação”, sua atuação nesse clássico foi ignorada pela Academia. Depois disso, ficou estigmatizado, tendo sua figura confundida com a do criminoso Norman Bates e colecionando papeis pequenos demais para seu talento.

“Psicose”, sem dúvida, faz parte da cultura mundial. A mais famosa cena vira-e-mexe é parodiada num sem número de filmes e programas de televisão. Uma série foi produzida em 1987, “Bates Motel”, e na mesma década, já no fim de sua carreira, Anthony Perkins estrelou três sequências do filme, inclusive dirigindo “Psicose 3”. Em 1998, o diretor Gus Van Sant refilmou a obra-prima a cores, seguindo o original em seus mínimos detalhes. Bastante inferior, esta versão traz Vince Vaughn como Norman, em uma performance bem sinistra desde o início.

Tratar de “Psicose” é uma tarefa tão árdua quanto convencer Norman de que a melhor amiga de um garoto não é sua mãe. Milhares de abordagens são possíveis e o filme se tornou objeto central de incontáveis debates, artigos, estudos universitários e outros escritos. Do papel ele foi para a película e, graças à sua inquestionável qualidade, voltou para o papel, modificado pela percepção de milhões que se sentiram movidos por esse clássico da sétima arte.


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