2 de outubro de 2011

Não Gostar de Ler Não é Ruim - (Coluna) Ler é Compreender


Quem já não ouviu aquela propaganda televisiva do governo ou aquela entrevista de um pedagogo com muito idealismo e pouca noção da realidade que defendia que todo e qualquer ser humano pode ser tornar um ávido leitor capaz de ler centenas de páginas com a mesma facilidade de atuar melhor que um dos jovens de Malhação? Eu, particularmente, já ouvi isto ser repetido muitas vezes e até hoje fico incomodado.

O problema surge pela ideia de que uma meia verdade aqui, ou um exagero ali, pode ser justificado se houver uma boa intenção por trás; é a velha teoria de mentir quando necessário para justificar um suposto bem maior que virá a seguir. As propagandas de leitura nos convencem de que qualquer um tem de gostar de ler, se não a gosta a culpa é de uma insuficiência desse alguém, normalmente algo que pode ser resolvido com educação e muita insistência.

A lógica por traz do "todo mundo pode gostar de ler" é falaciosa pois quase tudo pode seguir esta mesma regra de ser apreciado caso a pessoa se dedique bastante e seja suficientemente pressionada, um nome para isso pode ser alienação pois é o mesmo processo que ocorre quando um alguém começa a interpretar que coisas assim não muito boas não são tão ruins quando observadas pelo ponto de vista adequado.

É só lembrar daquilo que as nutricionistas falam sobre os legumes querendo nos convencer de que mesmo o mais famigerado dos jilós pode ser bom se insistirmos e nos dedicarmos a lhe fornecer uma chance de mostrar as suas propriedades benéficas e seu sabor diferenciado; a questão é que isto vale para toda e qualquer outra coisa que achemos ruim, pois quem não tem um amigo (na verdade vários) que adora coisas que você odeia.

Alguns podem dizer, todavia, que algumas pessoas não são sugestionadas a ponto de mudar sua opinião; ou seja, vão existir aqueles que não gostam de ler e vão continuar não gostando, aqueles que detestam jiló e vão continuar não comendo e por aí vai. Então como se explica essa teoria de que tudo pode ser agradável a todos? Simples, eles não insistiram com o afinco necessário, normalmente em razão de alguma resistência interna que impediu que se dedicassem o suficiente a ponto de mudar de opinião.

E eu não estou criticando estas resistências, muito pelo contrário, elas são muito boas se utilizadas com a moderação recomendada pelo bom e velho Aristóteles, pois o que os educadores e entusiastas radicais da literatura se esquecem é que as pessoas tem todo o direito de não gostar de ler e isso é muito natural.

Claro que eu defendo a obrigatoriedade do aprendizado da leitura nas escolas mas a ideia é formar pessoas que saibam e leiam bem (o que já é complicado por si só) e não que todos virem amantes da leitura segundo o tão repetido argumento que quem não gosta tem, necessariamente, algum problema que merece ser resolvido, bem ao estilo daqueles argumentos infantis que fabricam uma condicional como "se você não gosta de futebol não é normal", aí todas as outras crianças (que não querem ser anormais) passam a pelo menos fingir gostar do esporte. É precisamente este o mesmo estilo argumentativo de quem defende que todos devem gostar de ler.

O que realmente deve levar as pessoas a aprecia a leitura é, na verdade, a demonstração das qualidades desta atividade, a imaginação que surge, a profundidade narrativa, a possibilidade de transcender os limites da realidade aparente e todos os outros benefícios que nós sabemos que vem deste procedimento, se eles concordarem ótimo senão bom também pois o importante é formar leitores espontâneos e genuínos e não pessoas que aprenderam como obrigação, pois é em obrigar alguém a fazer algo que não deseja que surgem os sempre traumatizados odiadores.


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