25 de setembro de 2011

O Mágico de Oz (1939) - Papel & Película (Coluna)


Clássico obrigatório para as crianças americanas por sua mensagem otimista e sublime, “O Maravilhoso Mágico de Oz”, livro lançado por L. Frank Baum em 1900, teve diversas adaptações cinematográficas e continuações literárias até chegar a seu filme definitivo, o alegre e colorido musical de 1939, responsável pelo lançamento mundial da jovem estrela Judy Garland. Mas a aura de magia do filme não está tão presente no livro que é, em algumas partes, até bastante violento para o público infantil.

O autor começa o livro apresentando-o como um conto de fadas moderno, sem o pesadelo e a dor presentes em outros contos do gênero. A heroína, Dorothy, é uma órfã sensível, mas decidida. Ela vive no cinzento Kansas com seus tios e seu cachorrinho de estimação. Um tornado a leva para a terra distante de Oz. Para voltar ao seu lar ela deve falar com o poderoso Mágico de Oz e, no caminho, ela encontra curiosas criaturas, umas do bem, outras do mal. Bastante simples, não? O que não é tão simples é o desejo de cada um dos companheiros de viagem de Dorothy: o Espantalho quer um cérebro, o Homem de Lata, um coração e o Leão, coragem. E, o mais difícil: para terem seus desejos realizados, eles devem matar (sim, matar em uma história infantil!) a Bruxa Má do Oeste.

Em 1910 foi feita a primeira adaptação do livro para o cinema, um esforço curioso dos primórdios da sétima arte, que está em domínio público na Internet. A versão de 1939 foi a primeira a usar o som e, graças ao talento da jovem protagonista, tornou-se um musical de sucesso. Cinco minutos depois do começo vem a música-símbolo da produção e uma das mais belas da História do cinema: “Over the Rainbow”, entoada de maneira espetacular por uma garota de 16 anos. O uso da cor também é emblemático. O Kansas, triste e empobrecido, é mostrado em tons de sépia, enquanto a Terra Encantada de Oz é, desde o primeiro minuto, vista com um colorido onírico da nascente tecnologia do Technicolor.

Um dos maiores símbolos do filme, os sapatinhos de rubi, estão diferentes no livro: são feitos de prata. O vermelho-vivo da pedra preciosa certamente ficou mais estético nas telas. E não foi só essa licença cinematográfica utilizada. Muitas partes eram elaboradas ou imaginativas demais para um cinema quase rústico e sem tecnologias avançadas. Baum escreveu o que sua imaginação permitiu, sem sequer imaginar que o nascente cinema de 1900 iria recontar sua história. Assim, episódios envolvendo um exército de ratos bonzinhos, um povoado de porcelana, árvores lutadoras ou seres humanos sem braço e com cabeça de martelo acabaram fora do filme. A própria multidão de Munchkins, anões alegres de Oz, foi um desafio para ser conseguida e controlada. O grupo de artistas pequeninos “The Singer Midgets” veio da Europa fugindo do Nazismo e seus adoráveis membros, mesmo não falando inglês, deram trabalho a Judy Garland, tentando se infiltrar debaixo de seu vestido. 

Para nossa época em que impera o politicamente correto, e mesmo para a época da realização do filme, em que imperava o Código Hays de Conduta para as produções cinematográficas, algumas passagens do livro são totalmente irrealizáveis. O Homem de Lata, por exemplo, não hesita em sacar seu afiado machado e cortar árvores ou matar animais silvestres para que o grupo siga sua jornada.

É impossível ler o livro sem imediatamente imaginar os personagens como na versão cinematográfica. Criar as imagens deles, no entanto, não foi nada fácil. Judy teve vários testes de roupa e maquiagem, incluindo uma mistura de Lolita com femme-fatale loira, até chegar à virginal garotinha de 11 anos com um apertado espartilho. A maquiagem de alumínio para o Homem de Lata provocou uma reação alérgica em Buddy Ebsen, o primeiro ator escalado para o papel. O chefe da MGM chegou a considerar o uso de um leão de verdade, que teria sua voz dublada posteriormente. A ideia bizarra foi descartada, mas o ator Bert Lahr sofreu para compor o personagem: sua caracterização facial o impedia de consumir alimentos sólidos! Apesar dos percalços da produção, as adaptações e técnicas mirabolantes usadas para criar toda a fantasia que cerca a aventura de Dorothy nos impressionam até hoje. 

Foram necessários 14 roteiristas para adaptar o livro para o cinema. Eles vedaram muito da magia presente na história original. Fica claro para quem lê o livro que a Terra de Oz é um lugar real (não “além do arco-íris” ou apenas um sonho de uma menina que desmaiou durante a passagem de um tornado), pois a busca do quarteto pelo Mágico de Oz é descrita durando vários e vários dias. Além disso, a bela lição de moral “nós já temos dentro de nós mesmos aquilo que procuramos” nem de longe aparece no livro. Ao contrário, o Mágico, mesmo sendo um impostor, fornece um cérebro de palha e alfinetes ao Espantalho, um coração de seda ao Homem de Lata e um líquido verde da coragem ao Leão, concedendo-lhes o que tanto almejavam.

A moral infantil da história pode ser esquecida quando vemos a influência da película. Muitos estudiosos veem no enredo uma metáfora da sociedade e da economia americana. Dezenas de estudos nas mais variadas áreas foram feitos sobre Dorothy e seus amigos. Continuações cinematográficas, shows da Broadway e esquetes em programas de humor originaram-se a partir da singela história. Reza a lenda que o disco “The Dark Side of the Moon”, da banda Pink Floyd, se colocado para tocar simultaneamente ao filme, mostra incríveis coincidências. 

“O Mágico de Oz” foi escolhido pela MGM para fazer frente ao sucesso de Walt Disney “Branca de Neve e os Sete Anões”, a maior bilheteria do cinema até então. Com uma dose certa de encantamento, lições de moral, músicas comoventes e personagens cativantes, tal filme ultrapassa qualquer fronteira temporal, assim como faz o livro. Lido e assistido por milhares ao longo dos anos, não há quem não tenha “O Mágico de Oz” entre suas mais doces memórias de infância. 

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