11 de setembro de 2011

O Curioso Caso de Benjamin Button (2008) - Papel e Película (Coluna)


Um mote genial deu origem ao conto de F. Scott Fitzgerald e ao filme de David Fincher: e se a vida fosse ao contrário? E se nascêssemos velhos e morrêssemos bebês? Ao se deparar com essa questão muitos se perguntaram: por que eu não pensei nisso antes? Afinal, cinema literatura não podiam deixar passar um enredo tão brilhante.

Em seu conto, Fitzgerald é mais criativo que os roteiristas de Hollywood. De fato, apenas a idéia central do escritor foi parar nas telas. Todo o resto é bastante diferente e, como não podia deixar de ser, o filme apela para um amor impossível para dar maior dramaticidade e cativar o público. Na história escrita, são muito mais exploradas as situações cotidianas que se tornam um desafio para quem não aparenta e demonstra a idade que tem: para Benjamin, frequentar uma escola e uma universidade, paquerar, constituir família e trabalhar são grandes dramas.

Para o Benjamin das telas, interpretado por Brad Pitt, o grande problema é viver um romance absurdo: quando eles se conhecem, ele é velho e ela é criança e, com o passar do tempo, ele vai remoçando e ela envelhecendo, até que chega um breve período de tempo em que a relação dos dois é viável e aceitável. Daisy (Cate Blanchett), uma dançarina, precisava aproveitar esse pouco tempo antes que Benjamin se tornasse jovem demais para ela. Quando isso acontece, a separação é inevitável e dolorosa.

É a própria Daisy, já idosa, que dá o fio da narração através de um diário lido por sua filha Caroline (Julia Ormond) em um quarto de hospital, onde a mãe está internada, em meio à passagem do furacão Katrina pela cidade de New Orleans. Na história original, toda a ação se passa em Baltimore. Essa é só uma das modificações feitas para o cinema. Para citar algumas: Benjamin é criado pela própria família (no filme, sua mãe morre no parto, o que parece bem plausível, e ele é criado por uma família negra em uma pensão); ele se casa com uma jovem chamada Hildegarde e a abandona conforme ela vai envelhecendo e deixando de ser atraente; Benjamin tem um filho, Roscoe, com quem passa a viver quando se torna criança. E, a mudança mais sem sentido: para combinar com o sobrenome, os roteiristas fizeram com que a família de Benjamin tivesse uma fábrica de botões (buttons), ao invés de um negócio de peças e ferramentas.

Desde a década de 1970 a fascinante e dilacerante trajetória de Benjamin Button vem sendo sondada por produtores cinematográficos. Jack Nicholson, Tom Cruise e John Travolta foram considerados para o papel protagonista durante esses anos. Por desencontros e outros problemas, David Fincher só pôde realizar o projeto em 2008, sendo que já pensava nele desde 1994.

Obviamente, os efeitos especias são o grande destaque. Toda a maquiagem usada por Brad Pitt é um espetáculo à parte, demorando cinco horas diariamente para ser feita. A recriação de 85 anos de história é bastante acurada, ocorrendo alguns deslizes percebidos somente pelo público mais observador. Na pensão em que “cresce” Benjamin, o destaque é para o cômico senhor que sabe apenas contar suas histórias das sete vezes em que foi atingido por um raio.

O grande problema de Benjamin Button é, na realidade, ser diferente. Hoje falamos tanto nessa questão e, por mais fantasioso que seja o conto, é isso que torna a vida tão difícil para Benjamin. Não apenas por ele não poder fazer o que é adequado à sua idade cronológica devido à sua aparência destoante, mas também porque sua vida é, mais do que qualquer outra, uma contagem regressiva. Quem leu “Memórias Póstumas de Brás Cubas” deve se lembrar do diabo descontando moedas a cada segundo de nossa existência, com a sinistra ladainha: “outra de menos, outra de menos...” Assim provavelmente seria a vida se ela fosse ao contrário. Logo surgiriam questões éticas, uma vez que cada um já saberia o quanto iria viver. Pais descobririam quantos anos os filhos sobreviveriam assim que nascessem e poderiam optar por dar tratamento diferenciado àqueles que iriam viver mais. Cada um viria com prazo de validade certo e nada poderia ser feita para prolongar a vida.

Para mim e certamente para vários outros leitores / espectadores, uma vida ao contrário pareceu bastante triste. Muitos idosos levam uma vida saudável e feliz, sem deterioração física ou psicológica. A perda de capacidade intelectual e força física de Benjamin é bem parecida com a condição de doenças degenerativas que tornam os idosos totalmente dependentes de cuidados. O que se poderia esperar seria uma velhice demente e sem doces memórias.

Felizes com a impossibilidade de a vida imitar a arte, todos devemos apreciar e refletir esse belo e comovente filme, repleto de boas surpresas, e agradecer a F. Scott Fitzgerald por colocar no papel ideia tão incrível e, ao mesmo tempo, algo assustadora.




Letícia

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