14 de agosto de 2011

O Xangô de Baker Street (2001) - Papel & Pelicula (Coluna)


Quando Sir Arthur Conan Doyle criou o detetive Sherlock Holmes e seu fiel escudeiro Dr. Watson talvez ele nem imaginasse que tais personagens se enraizariam de forma tão forte na cultura popular mundial. Partindo dessa dupla, muitos escritores já criaram histórias curiosas e divertidas. Foi isso que fez Jô Soares, em seu livro que deu origem a um charmoso filme.

O ano é 1886. O Império está ruindo, mas ainda assim D. Pedro II (Cláudio Marzo) não deixa de trazer atrações culturais aos palcos brasileiros, caso da famosa atriz francesa Sarah Bernhardt (Maria de Medeiros). É ela quem sugere o detetive inglês para solucionar o desaparecimento de um violino Stradivarius dado pelo imperador à baronesa Maria Luiza (Cláudia Abreu). Nesse mesmo momento uma série de assassinatos desafia a inteligência do delegado Mello Pimenta (Marco Nanini). As vítimas são prostitutas que têm suas orelhas cortadas após o crime e seus corpos encontrados junto a uma corda de violino. Mais um caso para Holmes, interpretado pelo ator portugês Joaquim de Almeida.

Com uma fiel reconstrução de época, nos vemos diante de uma grande sátira. Sátira à sociedade burguesa, à monarquia, ao próprio Holmes, que se atrapalha quanto ao estilo de vida tropical. Desse problema de adaptação surgem várias boas piadas. Preste bastante atenção para como a dupla ajuda a inventar a caipirinha, em uma das melhores cenas. A comida e as mulheres brasileiras também mexem com o sistema digestivo, a cabeça e o coração dos intrépidos ingleses.

O elenco mistura alguns atores portugueses, por ser uma co-produção Brasil – Portugal, e vários rostos conhecidos do público noveleiro, como Letícia Sabatella, Caco Ciocler e Thalma de Freitas. As gravações foram realizadas nas cidades do Rio de Janeiro e do Porto, em Portugal. O próprio Jô Soares faz uma ponta (complexo de Alfred Hitchcock?) como um desembargador.

No Grande Prêmio BR de Cinema, o filme foi indicado em 12 categorias, vencendo três delas: Melhor Som, Edição de Som e Direção de Arte, troféu que também ganhou no Prêmio ABC de Cinematografia, tornando-o uma das mais importantes produções do ano. E olha que 2001 foi um forte ano para o cinema brasileiro, com o lançamento de Caramuru – A invenção do Brasil, Bicho de Sete Cabeças e Memórias Póstumas, dentre outros. 

Algumas situações, obviamente, ficam melhores no livro, de acordo com a imaginação do leitor, do que na tela. A voz do assassino narrando no filme aparece no mesmo momento narrativo que no livro, mas só o leitor perspicaz consegue desvendar o mistério nesse ponto. O espectador atento, no entanto, reconhece o tom de voz e descobre a identidade do assassino. A revelação, em qualquer um dos casos, é uma boa surpresa, diga-se de passagem. Além disso, para os mais acostumados às perseguições frenéticas hollywoodianas, o ritmo do filme é lento, coisa que não acontece em uma obra impressa, em que quem dita o ritmo é quem lê.

Livro e filme foram comercializados em países de língua inglesa sob o título “A Samba for Sherlock”. Uma boa adaptação, fiel e divertida, para alegria dos estudantes preguiçosos que têm como tarefa a leitura do romance e a trocam pelo filme. Nada contra um cineminha. Mas por que não consumir e comparar essas duas formas de arte tão belas e complementares? 

Abraços aos leitores,
Letícia Magalhães

Letícia

Um comentário:

  1. Não gostei muito do filme, achei as atuações bem aquém do desejado com um enredo um tanto pobre.

    Talvez me incomode mais já que sou fã de Conan Doyle.

    Mas o texto como sempre está muito bom, parabéns novamente.

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