28 de agosto de 2011

Assassinato no Expresso do Oriente (1974) - Papel e Película (Coluna)


A dama do suspense, Agatha Christie, considerava esta a melhor adaptação de um livro seu para o cinema. É claro que a história ajuda: o famoso detetive belga Hercule Poirot, viajando no Expresso do Oriente, passa a investigar um misterioso assassinato cometido em uma noite fria, com o trem parado pela nevasca. Todos os passageiros, das mais diferentes personalidades e nacionalidades, parecem esconder algo em seu depoimento. A chave que liga assassinado e suspeitos é a morte de pai, mãe e filhas da família Armstrong, tragédia desencadeada pelo sequestro da menina, planejado pelo morto.

O diretor Sidney Lumet escalou um elenco de dar inveja: Sean Connery, Albert Finney, Vanessa Redgrave, Ingrid Bergman, Lauren Bacall, Anthony Perkins, John Gielgud, Wendy Hiller, Richard Widmark e Jacqueline Bisset. Juntos, tais astros e estrelas contabilizavam 58 indicações e 14 vitórias no Oscar. Cada um dá vida a um dos passageiros e é interrogado separadamente por Poirot (Finney), todos tendo um momento exclusivo para brilhar.

Para condensar um livro com 32 capítulos em um filme com pouco mais de duas horas, muita coisa foi modificada pelo roteirista Paul Dehn. Todos os passageiros são mostrados sendo interrogados apenas uma vez, o que ressalta a genialidade do detetive ao solucionar o caso. No livro, ele conversa com algumas pessoas mais de uma vez antes de tirar suas conclusões. Assim, alguns diálogos importantes são resumidos em apenas um depoimento. 

Algumas modificações parecem desnecessárias. Hector MacQueen, o secretário do morto, é interpretado por Anthony Perkins (o Norman Bates de Psicose) e, ao contrário do que acontece no livro, ele tem uma espécie de complexo de Édipo, amando a falecida Linda Armstrong, a quem considerava como mãe, em uma clara referência ao papel que o imortalizou. Greta, a missionária sueca vivida por Ingrid Bergman (ganhadora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel) parece infinitamente mais perturbada no filme que no livro. Está um pouco abobalhada até, no entanto mais tarde descobrimos que isso tem uma razão de ser. O que não tem motivo é a mudança do nome do valete da vítima: no livro ele é Masterman, no filme ele recebe o tolo nome de Beddoes.

A exemplo do que aconteceu comigo, a imaginação do leitor pode não corresponder ao que é mostrado na tela. Albert Finney, aos 38 anos e cheio de maquiagem, faz de seu Poirot uma sinistra e pálida amálgama visual de Charles Chaplin e Buster Keaton. A própria Agatha Christie não ficou satisfeita com a performance do ator. Trabalhando simultaneamente no cinema e no teatro, a complicada caracterização era feita com o ator ainda dormindo, sendo ele levado, todas as manhãs, cochilando em uma ambulância de sua casa até o estúdio. A mesma decepção tive com Mrs. Hubbard (Lauren Bacall). A personagem tinha tudo para ser a mais divertida e carismática do filme se lhe fossem conservados os monólogos enfadonhos sobre sua filha que estão no livro. A interpretação um pouco forçada e o pequeno destaque para uma atriz tão talentosa diminuíram seu possível impacto.

Se ele peca por alguns deslizes, também tem pontos a favor: o figurino, a fotografia, a abertura com notícias de jornal sobre o caso Armstrong e, em especial, a música. Além disso, possui vários momentos cômicos, com destaque para Bianchi (Bouc no livro), interpretado por Martin Balsam, que, ao fim de cada interrogatório, acusa o interrogado com veemência.

Ágil e surpreendente, a produção cinematográfica, assim como a obra escrita, é para ser consumida com olhos atentos e neurônios funcionando em velocidade máxima. Quem descobrir o mistério antes do impressionante monólogo final de Hercule Poirot merece meus sinceros parabéns. Quem não descobrir, já teve o prazer de conhecer a escrita de uma das maiores autoras que já viveu e a atuação de um dos melhores elencos que Hollywood já reuniu.




Letícia

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