23 de julho de 2011

O Homem Elefante (1980) - Cinefilia Literária


Aterrorizante e sensível. Podem tais adjetivos estar ligados ao mesmo assunto? Neste caso a um mesmo filme? Difícil imaginar, mas é o que verdadeiramente acontece com a experiência singular em assistirmos a esse O Homem Elefante, filme de 1980, um dos primeiros da excêntrica carreira do inusitado David Lynch, foge demasiado ao que comumente pode fazer lembrar o cinema desse grande autor, sim, porque acima de tudo Lynch é deveras pessoal e extremamente reconhecível em seus filmes.

Gostei tanto deste filme que tenho de admitir: ele não está diretamente relacionado a um livro em particular, mas sim muito mais às memórias do médico que cuidou do caso na época, o Dr. Frederick Treves (vivido em tela por Anthony Hopkins) há também um livro chamado “The Elephant Man” de Tim Vicary, que conta a história de Joseph Merrick, mas este não foi utilizado como base para o filme.

Mas afinal o que chamou tanto a minha atenção? Primeiramente devo deixar claro que se trata de uma história real, o que a torna ainda mais incrível. Na Inglaterra vitoriana, mesmo período inclusive que ocorreram os famigerados ataques de Jack o Estripador, vivia Joseph Merrick, portador de uma doença que deformou 90% do seu corpo, tornando-o uma pessoa ao mesmo tempo temida e alvo de agressões e insultos por parte da população local.

Joseph Merrick, neste filme, chamado erroneamente de John, sofre maus-tratos constantes por parte do homem que se julga ser seu dono, apresentado ao público de maneira humilhante e repugnante, vive em um cubículo imundo sendo espancado e tratado como uma criatura que nada entende; um ser sem valor a não ser em seu estado de aberração.

O papel de Merrick é vivido com perfeição pelo ator John Hurt que consegue mesmo sob “toneladas” de maquiagem dá humanidade e sensibilidade a alguém considerado por muit@s como um monstro e é verdade que a situação é monstruosa em si, ela abre espaço para diversas reflexões acerca do que é “normal” e “aceitável”, sobre como a sociedade exclui tudo aquilo que lhe é diferente, mas o que é o normal? Quem denominou a normalidade como correta? E o diferente como ruim? Sabemos que tais acepções existem de maneira tão incorporada ao nosso cotidiano que sequer nos damos conta e muito menos dedicamos tempo para tirarmos nossas próprias conclusões acerca do que verdadeiramente é coerente ou não.

David Lynch e tod@s @s envolvid@s no desenvolvimento desta história, lidaram com a situação na medida de torná-la um clássico, sem exploração do grotesco ou sentimentalismos extremos, compartilhamos vida e sofrimentos de Joseph Merrick quase ao ponto de nos sentirmos em seu lugar e é essa sensação que tanto procuro obter dos filmes que vejo; e penso não ser muito diferente com aquelas e aqueles que amam tal arte tanto quanto eu.

Ficha técnica:

Livro escrito por: Tim Vicary, Manuscritos: Frederick Treves
Direção: David Lynch
Elenco: Anthony Hopkins, John Hurt, Anne Bancroft, John Gielgud


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