16 de julho de 2011

O Fantasma Apaixonado (1947) - Papel & Película (Coluna)


“O Fantasma Apaixonado” não é apenas um filme baseado em um livro. É um filme baseado em um livro sobre escrever livros.

Estamos cansados de dramas que mostram a separação de um casal apaixonado pela morte prematura de um dos pombinhos. Nesse sentido “O Fantasma Apaixonado” rompe totalmente com esse enredo: no filme, os protagonistas se apaixonam quando um deles já está morto.

Gene Tierney, com apenas parte de sua beleza revelada com a fotografia em preto-e-branco, é Lucy Muir, uma jovem viúva que sai da casa da cunhada e da sogra rumo a uma pousada mal-assombrada à beira-mar. Leva com ela a empregada e a filha, interpretada por uma pequena Natalie Wood. O problema é que o dono da casa, um marinheiro morto asfixiado, interpretado por Rex Harrison, ainda está por lá, e, no início, não está a fim de companhia. Mas tudo muda quando conhece melhor a nova habitante: destemida, amorosa e em dificuldades financeiras, ela aceita a ideia de escrever as memórias do fantasma, sob a orientação dele. Muitas reviravoltas ainda acontecem até que saibamos se esse amor impossível vai ou não se realizar.

No exercício de escrita do livro de Lucy, encontramos muitos pontos dignos de discussão para qualquer autor. Inspiração, por exemplo. Aqui, o que inspira a escritora é o fantasma que lhe dita as memórias (psicografia?). Nada de lampejos, ideias súbitas ou mirabolantes vindo do nada. A inspiração vem do além. Também vemos a força narrativa de um romance em primeira pessoa, aumentada pelo fato de uma mulher escrever como se fosse um rude marinheiro. É isso, aliás, que impressiona o editor e o convence a publicar a obra. Vale também destacar o duro caminho percorrido pela desconhecida autora até o editor, permeado, inclusive, por uma tempestade. Tudo vale a pena: “Blood and Swash” (algo como “Sangue e Maresia”) torna-se um best-seller. 

Um importante personagem coadjuvante é, ele também, autor que leva ao máximo nível a escrita como outra pessoa. O paquerador infiel vivido por George Sanders, por incrível que pareça, escreve histórias infantis sob o pseudônimo de Tio Neddy. Ele ensaia romance com Lucy, romance pouco desejado por parte dela, porém bem mais plausível do que com o fantasma. 

Algo muito interessante é a maneira como a passagem do tempo é simbolizada: através da deterioração de uma placa de madeira gravada com o nome da filha de Lucy. A trilha sonora, também encantadora, é assinada por Bernard Hermann (Cidadão Kane, Um Corpo que Cai, Psicose...), que considerava esta sua melhor obra.

Em 1968 o livro deu origem a uma série de TV que sobreviveu por duas temporadas nos Estados Unidos. Os direitos autorais foram comprados logo após o lançamento da obra, em 1945, na Inglaterra. Curiosamente a própria autora, Josephine Leslie, escreve sob o pseudônimo de R. A. Dick, um nome masculino. É possível apenas encontrar o livro em inglês, com o título original de “The Ghost and Mrs Muir”. Segundo os leitores, não decepciona os fãs da obra cinematográfica.

Um abraço aos leitores,

Lê.

Letícia

Um comentário:

  1. Assisti este magnífico filme na semana passada e fiquei encantada. Fascinou-me a poesia das cenas, bem mais que a dos próprios diálogos. Agora quero ler o livro, mas como você bem disse, é difícil encontrá-lo. Estou seguindo seu blog!! Beijos.

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